Comissão da verdade de São Paulo recebe relatos de psicólogos sobre a ditadura

A Comissão Estadual da Verdade de São Paulo recebeu hoje (21), do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, uma série de relatos de psicólogos que, de alguma forma, foram vítimas de violência durante a ditadura militar (1964-1985) no país.

A coordenadora da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, Maria Orlene Daré, informou que 27 psicólogos paulistas contaram como a ditadura militar os atingiu. Os depoimentos fazem do projeto Psicologia e Direito à Memória e à Verdade, trabalho que começou a ser desenvolvido pelo conselho em setembro do ano passado. Maria Orlene disse que a  intenção é contribuir com o momento político atual e com as comissões Nacional e Estadual da Verdade, buscando dados e informações que possam ajudar a esclarecer todas as violações ocorridas naquele período.

À Comissão da Verdade, o conselho entregou uma pasta contendo os 27 depoimentos por escrito e CDs com vídeos dos relatos, de documentos e das atividades e oficinas que foram desenvolvidas durante o trabalho.

Segundo a presidenta do Conselho Regional de Psicologia, Maria de Fátima Nassif, os relatos reúnem histórias de pessoas que sofreram diretamente com a ditadura militar ou que a viveram por serem irmãos, filhos ou parentes de presos e torturados no período e também de profissionais que trabalharam com vítimas do regime. “O dossiê é muito variado, assim como o nível de implicação. Mas todos os depoimentos demonstram, de forma bastante forte, a amplitude desse mal.”

Na audiência de hoje, na Assembleia Legislativa, psicólogos relataram, de forma breve, as marcas que carregam da ditadura militar. Dois dos testemunhos foram dados por Carolina Helena Sombini e Maria Auxiliadora Cunha Arantes, conhecida como Dodora.

Carolina contou que, aos 5 anos, foi morar com a avó, porque sua mãe era militante política. “Minha mãe se separou quando eu tinha uns 2 anos de idade. A separação dela do meu pai foi motivada pela militância política, com a qual ele não concordava. O companheiro dela foi alguém que ela conheceu pela militância. Por causa da militância e de eles viverem na clandestinidade, passei a viver com minha avó materna. Minha mãe mudava muito, porque ninguém podia saber onde eles estavam”, lembrou Carolina.

“Quando ela ia me buscar na casa da minha avó, dizia que eu nunca poderia dizer onde ela estava morando. Eu tinha um medo enorme de conseguir guardar o caminho. Ao mesmo tempo, olhava ansiosamente porque queria saber onde ela estava. É uma sensação horrível”, relatou, emocionada. A mãe de Carolina e o companheiro foram presos e torturados pela ditadura militar. Mais tarde, em um ano que ela diz não se lembrar exatamente quaal, os dois foram soltos. “A ditadura roubou e me tirou o direito à convivência familiar.”

Em outro relato, Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, conhecida como Dodora, contou que foi presa em 1968, quando estava com os dois filhos, que tinham, então, 2 e 3 anos de idade.

O projeto está sendo desenvolvido em todo o país e todos os relatos serão então reunidos em uma publicação com previsão de lançamento para setembro.