Com batalha ideológica e sem foco, manifestantes se dividem em SP

Um dia após a redução das tarifas dos transportes coletivos em São Paulo, a avenida Paulista se transformou em um espaço de intolerância para os partidos políticos, protestos contra uma infinidade de temas e a impressão de que ninguém sabia direito para onde ir. Ao fim da noite, a avenida mais popular de São Paulo se transformou em uma espécie de passarela, com pessoas andando de um lado para o outro, sem compromisso, antes de voltar para casa.

Quando o sétimo ato promovido pelo Movimento Passe Livre se iniciou, pouco depois das 17h, o principal ponto de tensão foi provocado pela presença dos membros dos movimentos sindicais e sociais, além de representantes de partidos de esquerda como PT, PCB, PCdoB, PSTU, Psol e PCO. Vestidos com camisetas vermelhas e portando bandeiras com as suas siglas, passaram a ser hostilizados por um grupo que, apesar de pouco numeroso, encontrou eco em parte da massa de pessoas que participou do ato.

Durante a "preleção" para a manifestação, pouco antes de seu início, Alfredo Santos, secretário nacional da Juventude da Central Única dos Trabalhadores, deu o alerta. "Vamos para participar, não para confrontar. Da rua nunca saímos e não sairemos. Críticas contra partidos fazem parte da democracia. O que não podemos é revidar e aceitar provocação", disse ele. A orientação era a de que o grupo se posicionasse aos poucos na manifestação, para não acirrar os ânimos.

E foi aos poucos, o pequeno grupo cresceu e chegou a umas 500 pessoas. Além das camisas, havia muitas bandeiras. Com todos juntos, começou a hostilidade, com a marcha em andamento. Cerca de 30 pessoas formaram uma barreira humana, atrás da passeata, para impedir algum tipo de ataque. Andando de costas para as manifestações, esse grupo foi o mais hostilizado.

"Oportunistas", gritou um homem de capacete e máscara, com o dedo em riste. Como resposta, ouviu: "você só está aqui hoje por conta da luta dessa gente". Mais gritos, desta vez em coro: "se não baixar (as bandeiras), vai rachar". Mas a ordem era: bandeiras ao alto. Em meio a muito empurra-empurra, algumas foram tomadas, rasgadas e queimadas, sob aplausos gerais.

A hostilidade prosseguiu: "sem partido", gritou o psicólogo Luiz Felipe Fabrice, 32 anos, que disse ter deixado o trabalho para protestar. "Mas você é anarquista", devolveu um militante. Foi um dos poucos momentos de silêncio entre os oponentes.

Próximo à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a situação ficou insustentável e os membros dos partidos acabaram se dispersando, mantendo apenas alguns mastros de bandeiras para se defenderem de uma eventual agressão. Um dos que passou a manifestação contra eles, acabou com um ferimento na cabeça, cuja causa não pode ser observada. No meio da confusão, muitos objetos foram lançados, entre eles, algumas garrafas de cerveja.

O professor da rede pública João Victor Pavesi de Oliveira, 27 anos, integrante do diretório do Psol, participou das seis manifestações realizadas pela redução da tarifa do transporte público em São Paulo e, nesta quinta-feira, foi novamente às ruas participar do ato convocado pelo Movimento Passe Livre. Ele, entretanto, admitiu que a reação de hostilidade contra os partidos e aos movimentos sindicais e sociais causou "receio", e que o grupo já havia adotado medidas para se proteger.

"Isso ganhou uma proporção que ninguém esperava. Há um temor sim pela nossa integridade física", disse Oliveira, que destacou que a orientação dos manifestantes partidários era permanecer na defensiva. Segundo Pavesi, militantes dos partidos de esquerda e integrantes do MPL se reuniram nesta semana para discutir a "guinada" à direita que as manifestações tomaram desde a última terça-feira, quando houve depredação generalizada em frente à Prefeitura de São Paulo.

A socióloga Mariana Toledo, 27 anos, militante do MPL e uma das organizadoras dos seis protestos sobre transportes públicos, criticou o ataque aos ativistas de partidos. O MPL deixou o ato pouco apos o início da passeata, dizendo ter cumprido sua missão – em um claro sinal de descontentamento com a mudança de perfil dos protestos.

"O Movimento Passe Livre é apartidário, não antipartidário. Estão tentando tensionar a manifestação. Mas nem a polícia, nem qualquer grupo organizado tem o direito de impedir que qualquer um se manifeste", afirmou Mariana, que disse ainda não saber apontar quais são esses "grupos organizados".

A professora Ligia Affine Jorge, 54 anos, criticou os manifestantes que carregavam bandeiras partidárias, e disse ter ido às ruas motivada pela luta apartidária pregada na manifestação da última segunda-feira. Ela, porém, condenou também o uso da violência. "O que me trouxe para o movimento foi o fato de não haver um comando. Os partidos realmente não deveriam se meter no meio. Pelo menos, não até que se identifique que rumo isso terá", afirmou. "Só espero que isso não acabe em pizza, que não seja pra nada", disse. 

"A policia não está mais violenta, mas a violência agora parte das pessoas. O protesto virou uma festa. As pessoas estão bebendo, brigando contra tudo, e os poucos que estavam organizados por uma causa foram expulsos hoje", lamentou a estudante de letras da USP Julia, 23 anos, que preferiu não dar o sobrenome.

"Isso é um absurdo. Até entendo a raiva contra o PT, mas contra o PSTU? O PCO? A gente sempre esteve com eles na luta e fomos expulsos da manifestação. Até o Movimento Passe Livre foi expulso. Os 'coxinhas' tomaram a manifestação. Eles são uns fascistas", disse uma militante do PSTU com lágrimas nos olhos e já sem a identificação do partido.

Pedro Bernardo, do MPL, saiu em defesa dos partidos políticos e dos movimentos sociais. "Os militantes de extrema direita querem dar ares fascistas para o movimento. Hoje é um dia de vitória, mas é bom lembrar que a nossa luta é a tarifa zero. O MPL deu o exemplo colocando o povo pra participar do processo democrático. Vamos continuar tentando dar um bom exemplo para o povo. Agora o movimento vai sentar e deliberar sobre os próximos passos".

Para o analista de tecnologia da informação Pedro Henrique Gonçalves,  26 anos, a falta de um comando gera desorganização e faz com que o protesto perca força. "Esses protestos não têm liderança. Acho que precisa ter um comando algo assim. Se não,  fica tudo meio perdido."

Contra tudo

Após o conflito, a passeata – até então unificada – se dispersou em vários pequenos grupos, cada um carregando sua bandeira e sua causa. Na multidão, havia desde pessoas protestando contra corrupção e os gastos públicos com a Copa das Confederações, até manifestantes pedindo proteção aos animais, o veto ao ato médico, a derrubada de projetos como a PEC (Proposta de Emenda Constitucional 37) – que tira do Ministério Público o poder de investigação – e da “cura gay”, do deputado Marco Feliciano (PSC-SP).

Sem a bandeira da redução das tarifas do transporte público, o povo trocou o grito “vem pra rua contra o aumento” por “vem pra rua contra o governo”, mas mesmo quem estava lado a lado parecia não ter o discurso afinado. Enquanto muitos se referiam ao governo da presidente Dilma Rousseff (PT), outros tantos – que gritavam o mesmo “slogan” – pediam a saída do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Alheios a todas as pautas, muitos pareciam estar em uma grande festa.  Munidos de bandeiras do Brasil e cartazes, jovens se deitavam nas faixas de pedestre da avenida Paulista para posar para fotos, imediatamente compartilhadas nas redes sociais.  

"Desde pirralho eu sonhava com esse dia, em que as pessoas iriam para as ruas protestar. Mas cheguei aqui hoje e isso parece uma festa. Parece um concurso de cartazes para exibir no Facebook. Hoje o Brasil mostrou que não tem maturidade para assumir um movimento sem controle e sem lideranças", lamentou Fagner Augusto, 21 anos, professor de filosofia, que revoltado com a cena pegou um mega-fone e foi discursar contra os rumos do movimento.

Cenas como a do discurso de Fagner se repetiam em vários pontos da avenida Paulista. Passada a passeata, sobravam grupos de discussão, que pareciam não se entender. Mesmo quem ainda demonstrava animação não sabia para onde ir. De um lado, manifestantes gritavam "vamos para a Assembléia" e, de outro, ouviam a resposta: “não, vamos para a Câmara”. De fato, cada parte foi para um lado. Na Assembleia, permaneceram por cerca de 30 minutos sem saber direito contra quem protestar.  

Um dos poucos movimentos que se manteve unido até o fim foi o dos anarquistas, que passeavam com uma bandeira preta e vermelha contra o "facismo". Os gritos de ordem do grupo, entretanto, causavam espanto dos manifestantes encapuzados com bandeiras do Brasil, que revidavam palavras como "sem violência", quando ouviam os gritos: "vocês entenderam mal. Isso aqui não é Carnaval".

Já perto da meia-noite, até mesmo um grupo de anarquistas, que participou do ato, ficou surpreso com a adesão à causa deles, ainda que, talvez, inconscientemente. Aos risos, houve concordância de um deles. "Sim, sem partidos. Isso é o movimento anarquista".