Negligência compromete gerenciamento de resíduos químicos em hospitais

Sempre que pensamos em hospitais, imaginamos um lugar limpo e seguro, destinado ao socorro e tratamento de pacientes. Mas, para Angelica Malvão Carlson, mestre em engenharia química pela Uerj, dentre todos os estabelecimentos prestadores de serviços de saúde, os hospitais são os maiores geradores de resíduos químicos. 

Isso porque, passada a burocracia dos planos de saúde, ou a loucura dos hospitais públicos, pouco se pensa sobre o que acontece nos bastidores dessa instituição e, principalmente sobre como é realizado o descarte do lixo hospitalar que, se mau gerenciado, pode resultar nos mais diversos prejuízos. 

Segundo a engenheira, os resíduos químicos são responsáveis, entre outros fatores, pela poluição de solos e de redes de esgoto e mares, além dos danos causados à saúde da população, caso não haja um descarte adequado do material: “os efeitos tóxicos e nocivos desses resíduos, a longo prazo (como no caso de medicamentos quimioterápicos e/ou produtos químicos com ação cancerígena), demandam extremo cuidado e atenção ao serem lidados”. 

Autora da dissertação Gerenciamento de resíduos químicos em ambientes hospitalares: necessidades e dificuldades – estudo de caso: Hospital Universitário Federal localizado no Estado do Rio de Janeiro, Angelica defende que o controle e a redução dos riscos inerentes a este tipo de resíduos, além de uma exigência legal, são uma necessidade ambiental e um desafio a ser enfrentado pelos administradores de estabelecimentos assistenciais à saúde. 

“A administração dos estabelecimentos de saúde tem que estar dispostas a cumprir as recomendações dos órgãos sanitários e ambientais, mas não apenas de forma imediata. Deve haver uma continuidade desse trabalho por parte dos gestores. Além disso, é preciso sanar a falta de estrutura dos municípios para que possam receber os resíduos de serviço de saúde (RSS), incluindo esses resíduos químicos”, ressaltou Carlson. 

Apesar de a legislação brasileira ser responsável pelo gerenciamento desses resíduos, a ausência de órgãos fiscalizadores no Estado do Rio de Janeiro faz com que o assunto seja tratado com descaso pela sociedade e que os resíduos tóxicos não sejam descartados de maneira apropriada. 

Angelica Carlson alerta ainda que “para cada tipo de resíduos químico há uma forma de manejo, acondicionamento, tratamento e descarte. Mas, de maneira geral, eles devem ser incinerados, em locais previamente licenciados, de forma a garantir qualquer impossibilidade de contaminação e/ou poluição”. 

Segundo a engenheira, apesar de a mídia ser o único instrumento que a população possui para denunciar os casos de mau gerenciamento de RSS, ainda hoje “poucas são as notícias a respeito dos resíduos de serviço de saúde”. 

Como na fábula A Cigarra e a Formiga, você colhe aquilo que planta. E para colher consciência, é necessário plantar informação e mobilização. 

“Outro grande entrave para um efetivo gerenciamento dos resíduos químicos é a falta de consciência, tanto dos funcionários, médicos e gerência dos hospitais quanto da população. Por isso, conscientizar a população envolvida é muito difícil, mas é necessário. Trabalho de formiguinha”, concluiu Carlson.

*Da Agência Uerj de Notícias Científicas