RS: comandante dos bombeiros de Santa Maria depõe por quase 4 horas

Entre as 14h e as 18h desta quinta-feira, o compromisso do comandante do 4º Comando Regional do Bombeiros, tenente-coronel Moisés Fuchs, foi com a Polícia Civil. Ele foi o último representante da corporação a ser ouvido antes da conclusão do inquérito que investiga a tragédia na Boate Kiss.

De acordo com o delegado Sandro Meinerz, Fuchs respondeu a todos os questionamentos feitos, seja sobre a atuação dos bombeiros  no resgate das vítimas, seja do funcionamento interno da corporação em relação à liberação de alvarás de prevenção de incêndio.  

"Esclarecemos muitas dúvidas. Agora vamos fazer a análise do que ele disse. Não foi muito diferente de outros bombeiros que deram depoimento", analisou o delegado Sandro.

Fuchs se manteve na mesma linha de colegas que falaram sobre o uso do Sistema Integrado de Gerenciamento de Prevenção a Incêndio (SIG-PI). O sistema foi criado com o objetivo de agilizar planos de prevenção para prédios pequenos e de menor risco de fogo.

O que chamou a atenção na chegada do comandante à 1ª Delegacia de Polícia Civil (1ª DP) foi o fato de ele estar acompanhado por dois defensores públicos. Henrique Marder da Rosa, de São Gabriel, e Walter Luchese Willig, de Júlio de Castilhos, acompanharam todo o depoimento de Fuchs, que durou quase quatro horas. Eles foram designados para essa atividade por uma portaria assinada pelo defensor público-geral do Estado, Nilton Leonel Arnecke Maria.

"Ouvimos ele como testemunha. Testemunha não precisa de defensor", comentou o delegado Sandro Meinerz, ponderando que ele tinha o direito de ser acompanhado.  

Na saída, Fuchs disse que o defensor público estadual Walter Luchese Willig é que falaria com os repórteres que o aguardavam, repetindo isso a cada vez que uma pergunta lhe era feita. O defensor público se limitou a dizer que o comandante deu os "devidos esclarecimentos", mas não especificou nada mais sobre o depoimento.

Inquérito deve ser entregue à Justiça na segunda de manhã

O delegado regional de Polícia Civil, Marcelo Arigony, confirmou nesta quinta-feira que o inquérito que investiga a tragédia na Boate Kiss, que causou a morte de 241 pessoas, deve ser entregue à Justiça na segunda-feira pela manhã. Antes disso, os laudos do Instituto Geral de Perícias (IGP) devem  ser recebidos na 1ª DP nesta sexta-feira, com possibilidade de que isso ocorra ainda pela manhã.

Os resultados das perícias são considerados fundamentais para a conclusão do inquérito. São laudos sobre a estrutura do local onde funcionava a casa noturna, os extintores do incêndio, a espuma que havia no teto da boate e as causas das mortes.

"É um laudo complexo. A partir dessa análise que será feita amanhã (sexta-feira), sábado e talvez domingo, é que vamos apontar eventuais indiciados e apontar todas aquelas circunstâncias que eventualmente trarão responsabilizações em outras esferas que não a criminal. Provavelmente na segunda-feira pela manhã entregaremos o inquérito concluído para o Judiciário", afirma o delegado Arigony.

Além da chegada dos laudos do IGP, a outra atração do dia é a visita do chefe de Polícia do RS, delegado Ranolfo Vieira Júnior. Ele deve chegar à cidade no final da manhã desta sexta-feira. 

Incêndio na Boate Kiss

Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou mais de 230 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A intenção é oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.