RS: nº de altas superou expectativa de equipes médicas, diz coordenadora  

82 pacientes foram internados em estado grave - os médicos achavam difícil salvar a metade  

Enquanto o Brasil recebia a notícia de mais de 230 mortos na tragédia da Boate Kiss, de Santa Maria (RS), outro número assustava as equipes de saúde que lidavam com os internados: 82 estavam entubados em unidades de tratamento intensivo (UTIs) e cerca de 75 eram considerados pacientes em estado crítico, com risco de morrer. Passado um mês, a recuperação de grande parte dos pacientes em estado grave superou as expectativas da Força Nacional do SUS, que registrou cinco mortes em hospitais depois do dia trágico.

"Tivemos um número que era de 82 pacientes sob ventilação mecânica, e chegou um momento no gabinete de crise que fechamos os olhos e mentalizamos: se a gente salvar 50%, vamos nos considerar grandes heróis. Eram muito graves esses pacientes, eram de uma gravidade e instabilidade, eram pacientes grandes queimados, eram pacientes com queimaduras em toda árvore brônquica, em todo o pulmão", afirmou a coordenadora da Força Nacional do SUS, Conceição Costa.

"De repente, nós só temos três pacientes, quatro pacientes (em estado grave). O número de altas superou o sacrifício dessa equipe, as noites acordadas, os leitos abertos, as reuniões dessa equipe. Grandes lições aprendidas, como remoção de vários pacientes ao mesmo tempo", disse, ao ressaltar que nenhum paciente morreu em remoções aéreas ou em ambulâncias após terem dado entrada em hospitais.

Após a fase emergencial, o governo tende agora a se concentrar num mapeamento de pessoas que tiveram contato com a fumaça tóxica da Boate Kiss. A ideia é monitorar os pacientes para verificar a situação pulmonar daqueles que receberam alta. 

Pelo ineditismo da tragédia, é incerto determinar por quanto tempo os pacientes poderão apresentar sintomas respiratórios. "Esse prognóstico é altamente clínico. Esses pacientes todos serão submetidos a exames especializados, tomografia, ressonância (magnética), e só o resultado dos exames vai dizer se esse paciente está liberado ou se vai ser reavaliado daqui a 30 ou 40 dias, por exemplo", explicou Conceição.

Incêndio na Boate Kiss

Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou mais de 230 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A intenção é oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.