"Próximo que nós vamos desligar será o Ivo"

Escutas levam chefe de UTI à prisão preventiva

As escutas telefônicas de ligações entre a médica chefe da UTI Geral do Hospital Evangélico de Curitiba, Virgínia Soares de Souza, e seus funcionários foram as provas que mais pesaram para que fosse determinada a prisão temporária dela pelo juiz da Vara de Inquéritos Policiais da capital paranaense, Pedro Luis Sanson Corat. Virgínia é acusada de comandar um esquema de antecipação de óbitos na UTI para liberar leitos. Os motivos da prisão estão na parte do inquérito ao qual o Terra teve acesso na noite de terça-feira.

Salientando que a prisão temporária não significa o reconhecimento antecipado de culpa da investigada, o juiz justifica o deferimento pelo "perigo que a permanência do acusado em liberdade representa para a eficácia das investigações, do processo criminal e da própria sociedade". Diante dos indícios, o magistrado concluiu que, se os crimes realmente estivessem ocorrendo, a prática poderia ser mantida e "sua detenção afastaria eventual cumprimento de ordens por parte de seus subalternos que, mediante coautoria, participação, ou mesmo mero temor reverencial, auxiliam na consumação dos delitos investigados".

Eu falei: 'Crícia, pelo amor de Deus, tem alguns doentes que estão mortos, então vai desligando as coisas, que não tem sentido'!

Para o magistrado, há indícios suficientes para o deferimento da prisão temporária. "A leitura do laudo de exame cadavérico das vítimas permite a subsunção sumária ao fato narrado na denúncia anônima, onde se descreveu a utilização de fármacos que teriam o potencial de causar retração no pulmão das vítimas. Vários são os apontamentos que descrevem 'pulmões armados, congestos, hepatizados'."

Mas o principal indício de que, se há crime, ele poderia continuar sendo praticado, o que justificaria a prisão, para o magistrado, está nas escutas telefônicas. "A pretensão prisional em tela respalda-se, sobremodo, no teor do auto de degravação, onde a representada aparentemente ordena o desligamento de aparelhos", despachou o juiz, citando trechos das conversas entre a médica e seus subordinados.

Numa das conversas anexadas ao despacho, Virgínia aparece conversando com um interlocutor não identificado. Na conversa, a médica diz que "tem alguns doentes que estão mortos, então, vai desligando as coisas, que não tem sentido". Ao ser informada pelo interlocutor de que o paciente de quem falava já havia sido desligado, ela orienta: "e o próximo que vamos desligar é o Ivo". Em outro diálogo, a médica fala: "não adianta entulhar a UTI. Tem que girar".

Confira a íntegra dos diálogos:

(Virgínia) - O Alexandre achou no Paulo vaso aberto para tudo que é lado, mas eu falei, ele vai morrer, eu sabia que ele ia morrer.

(Interlocutor) - Ele ficou cinco minutos

(Virgínia) - Um minuto?

(Interlocutor) - Não, cinco minutos, foi muito rápido!

(Virgínia) - Eu falei, ele vai morrer. Eu falei: 'Crícia, pelo amor de Deus, tem alguns doentes que estão mortos, então vai desligando as coisas, que não tem sentido'!

(Interlocutor) - Ah, não, eu desliguei!

(Virgínia) - Oi?

(Interlocutor) - Eu desliguei pra ela, ela estava no telefone com a doutora dela, ela me pediu.

(Virgínia) - E o próximo que vamos desligar é o Ivo.

(Virgínia) - Eu falei, é, bom... como sobrou gente para trabalhar comigo, que saiu todo mundo do centro cirúrgico, eu consegui fazer. Ele ficou me olhando. Outra coisa, você não dá a porra de uma alta!

(Cláudio) - Mas também, não tinha tanta gente assim.

(Virgínia) - Ah, vai, Cláudio, não força. Não adianta entulhar a UTI. Tem que girar.

(Anderson) - Ele é meio entulhador mesmo. Ele é meio entulhador.

(Virgínia) - Meio?

(Anderson) - Ó, eu fiquei com cinco doentes, daí no final do dia eu tinha sete, daí hoje nós temos já 11. Falta chegar um. São 11. Mas se você der uma vaga, pronto. Mas se entulhar tudo, também não vai, né? A Eliza já é uma empata. Nossa senhora! Quero desentulhar essa UTI, que tá me dando coceira.

(Virgínia) - Uhu! Ai, ai...