MG: mais dois policiais são investigados por morte de Eliza Samudio

A Polícia Civil em Minas Gerais confirmou a existência de um inquérito complementar que investiga a participação de dois policiais civis na morte de Eliza Samudio, ex-amante do goleiro Bruno. Por ser uma apuração sigilosa, os nomes dos policiais supostamente envolvidos não foram divulgados pela corporação, mas o advogado Ércio Quaresma, que defende o ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, disse que se trata de José Lauriano de Assis, o Zezé, que já está aposentado; e do ex-integrante do extinto Grupo de Respostas Especiais (GRE) da Polícia Civil, Gilson da Costa, ainda na ativa.

Em novembro do ano passado, logo após a condenação de Luiz Henrique Ferreira Romão, o Macarrão, e Fernanda Gomes Castro, o promotor de Justiça Henry Wagner Vasconcelos Castro já havia informado que denunciaria Zezé pela participação no crime, o que aconteceu em dezembro.  Quaresma afirmou que teve acesso ao inquérito que foi aberto a pedido do promotor de Justiça. O representante do MP teria solicitado a quebra de sigilo bancário e telefônico do goleiro Bruno Fernandes, de Macarrão e de Bola de junho de 2010, período em que Eliza teria desaparecido. 

Os relatórios teriam apontado supostas transferências bancárias entre Bruno e Macarrão em altas quantias no período em que Eliza esteve em cativeiro e também ligações telefônicas entre Macarrão, Zezé e Gilson Costa no dia 10 de junho, dia que Eliza teria sido morta por Bola, segundo a polícia.

Quaresma disse que as provas levantadas no processo não são verdadeiras. "Não tem prova. Nós vamos provar que essas escutas são falsas. Isso vai ser provado no plenário", disse. De acordo com Quaresma, ele mesmo teria sido citado nas investigações durante a gravação de uma suposta ligação telefônica de Bola.

"Daqui a pouco vai surgir um terceiro suspeito. Esse cara sou eu", ironizou. "No inquérito, reza a lenda que o Bola teria feito um contato com um advogado conceituado de Belo Horizonte quando foi preso em abril para que subornasse os policiais", disse, levantando ainda suspeitas sobre a primeira apuração do caso, em 2010, quando José Lauriano foi investigado, mas não indiciado pela Polícia Civil. "O menor (Jorge Luiz Rosa, primo de Bruno) descreveu o suposto autor do homicídio como sendo de pele morena e calvo. Mesma descrição física do policial (Zezé). Estranho isso aparecer somente agora", cutucou.

O advogado Fernando Magalhães, outro representante de Marcos Aparecido dos Santos, informou que vai esperar o inquérito ser anexado ao processo no fórum de Contagem para tomar as medidas cabíveis. "Preciso ter conhecimento o conteúdo para tomar providências. Sei que isso fazia relação a outros dois policiais, como foi noticiado pela imprensa. Isso só comprova que fica mais distante a participação do Marcos Aparecido no caso", avaliou.

De acordo com a Polícia Civil, o inquérito requerido a pedido do MP tinha caráter sigiloso e havia sido vazado para um órgão de imprensa. A polícia não quis revelar detalhes sobre a investigação. Segundo o MP, o promotor de Justiça não vai se manifestar sobre o conteúdo do processo. 

O caso Bruno

Eliza desapareceu no dia 4 de junho de 2010 quando teria saído do Rio de Janeiro para Minas Gerais a convite de Bruno. No ano anterior, a estudante paranaense já havia procurado a polícia para dizer que estava grávida do goleiro e que ele a agrediu para que ela tomasse remédios abortivos. Após o nascimento da criança, Eliza acionou a Justiça para pedir o reconhecimento da paternidade de Bruno.

No dia 24 de junho, a polícia recebeu denúncias anônimas de que Eliza havia sido espancada por Bruno e dois amigos dele até a morte no sítio de propriedade do jogador, localizado em Esmeraldas, na Grande Belo Horizonte. Na noite do dia 25 de junho, a polícia foi ao local e recebeu a informação de que o bebê apontado como filho do atleta, então com 4 meses, estava lá. A então mulher do goleiro, Dayanne Rodrigues do Carmo Souza, negou a presença da criança na propriedade. No entanto, durante depoimento, um dos amigos de Bruno afirmou que havia entregado o menino na casa de uma adolescente no bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves, onde foi encontrado.

Enquanto a polícia fazia buscas ao corpo de Eliza seguindo denúncias anônimas, em entrevista a uma rádio no dia 6 de julho, um motorista de ônibus disse que seu sobrinho participou do crime e contou em detalhes como Eliza foi assassinada. O menor citado pelo motorista foi apreendido na casa de Bruno no Rio. Ele é primo do goleiro e, em dois depoimentos, admitiu participação no crime. Segundo a polícia, o jovem de 17 anos relatou que a ex-amante de Bruno foi levada do Rio para Minas, mantida em cativeiro e executada pelo ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola ou Neném, que a estrangulou e esquartejou seu corpo. Ainda segundo o relato, o ex-policial jogou os restos mortais para seus cães.

No dia seguinte, a mulher de Bruno foi presa. Após serem considerados foragidos, o goleiro e seu amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, acusado de participar do crime, se entregaram à polícia. Pouco depois, Flávio Caetano de Araújo, Wemerson Marques de Souza, o Coxinha Elenilson Vitor da Silva e Sérgio Rosa Sales, outro primo de Bruno, também foram presos por envolvimento no crime. Todos negam participação e se recusaram a prestar depoimento à polícia, decidindo falar apenas em juízo.

No dia 30 de julho, a Polícia de Minas Gerais indiciou todos pelo sequestro e morte de Eliza, sendo que Bruno foi apontado como mandante e executor do crime. Além dos oito que foram presos inicialmente, a investigação apontou a participação de uma namorada do goleiro, Fernanda Gomes Castro, que também foi indiciada e detida. O Ministério Público concordou com o relatório policial e ofereceu denúncia à Justiça, que aceitou e tornou réus todos os envolvidos. O jovem de 17 anos, embora tenha negado em depoimentos posteriores ter visto a morte de Eliza, foi condenado no dia 9 de agosto pela participação no crime e cumprirá medida socioeducativa de internação por prazo indeterminado.

No início de dezembro, Bruno e Macarrão foram condenados pelo sequestro e agressão a Eliza, em outubro de 2009, pela Justiça do Rio. O goleiro pegou quatro anos e seis meses de prisão por cárcere privado, lesão corporal e constrangimento ilegal, e seu amigo, três anos de reclusão por cárcere privado. Em 17 de dezembro, a Justiça mineira decidiu que Bruno, Macarrão, Sérgio Rosa Sales e Bola seriam levados a júri popular por homicídio triplamente qualificado, sendo que o último responderá também por ocultação de cadáver. Dayanne, Fernanda, Elenilson e Wemerson também irão a júri popular, mas por sequestro e cárcere privado. Além disso, a juíza decidiu pela revogação da prisão preventiva dos quatro. Flávio, que já havia sido libertado após ser excluído do pedido de MP para levar os réus a júri popular, foi absolvido. Além disso, nenhum deles responderá pelo crime de corrupção de menores.

No dia 19 de novembro de 2012, foi dado início ao julgamento de Bruno, Bola, Macarrão, Dayanne e Fernanda. Dois dias depois, após mudanças na defesa do goleiro, o tribunal decidiu desmembrar o processo. Bruno será julgado em março junto a outros dois acusados: o ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, que é acusado como autor do homicídio, e Dayane Rodrigues do Carmo, ex-mulher do goleiro e acusada de ser cúmplice no crime.

No dia 22 de novembro de 2012, durante depoimento de cinco horas, Macarrão responsabilizou Bruno pelo sumiço de Eliza. Dois dias depois, o júri condenou Luiz Henrique Romão, o Macarrão, a 15 anos de prisão, e Fernanda Gomes de Castro, a cinco anos.