Para advogado de Rugai, promotoria quer criar '2º caso Richthofen'

Marcelo Feller, advogado de defesa de Gil Rugai - que é acusado de matar o pai e a madrasta em 2004, na capital paulista -, diz estar convicto da inocência do réu. Durante o julgamento, que começa nesta segunda-feira, ele afirma que "se fiará em documentos que comprovam o que atesta", a sua inocência. Feller diz que Rugai, 29 anos, não teria motivos para matar as vítimas, que os depoimentos das testemunhas arroladas ao processo não são confiáveis e que as provas que a promotoria pretende apresentar são todas possíveis de serem contestadas. "Estão tentando criar um segundo caso Richthofen, não é o caso de Gil Rugai", diz ele. De acordo com o advogado, Léo, irmão de Rugai, vai testemunhar a favor dele durante o júri.

O advogado conta que, até hoje, o inventário com os bens do pai de Rugai está em suspenso, aguardando a decisão da Justiça sobre o destino de Gil. "Caso ele seja condenado, ele perde a herança. E quem seria o mais interessado nisso? Seu irmão, que vai defendê-lo durante o júri", afirmou.

Segundo Feller, no momento do crime, em 28 de março de 2004, Gil estava a, pelo menos, 4,5 quilômetros da casa onde ocorreram os assassinatos. "Cada testemunha fala em um horário para o crime: 21h, 21h30, 22h. O crime ocorre entre 21h54, com os disparos contra Alessandra, e 22h13, quando Luiz foi atingido. E ele não estava lá. Isso será comprovado".

O advogado diz que a versão de um vigia da região, que teria visto Gil deixando o imóvel após o crime, é inverossímil. "Cada testemunha diz uma coisa. Não se deve confiar nas testemunhas. Em um primeiro depoimento, ele disse que não viu. No segundo, diz que viu e conta uma dinâmica, que foi destroçada durante o processo. A terceira versão já é diferente. Ao ponto de a própria juíza perguntar se ele tinha problemas mentais", afirmou.

"Ele (o vigia) fala em dois assassinos. No depoimento, ele descreve perfeitamente o Gil e não sabe dizer se a segunda pessoa é homem ou mulher. Fala que ele está de capa e suspensório por baixo da capa. Parece um pouco demais", disse o advogado. O vigia chegou a ser beneficiado pelo serviço de proteção à testemunha, por temer pela própria vida após o crime.

Outra prova que a promotoria vai utilizar durante o julgamento, uma marca de sapato na porta - que foi arrombada antes da morte de Luiz Carlos -, não tem embasamento científico, de acordo com a opinião da defesa. "O Instituto de Criminalística ouviu quatro médicos, dois ortopedistas e dois fisioterapeutas. Eles escutam também um sapateiro, um artesão de sapatos. É dele a conclusão. Não é confiável. Sobra sapato ali. Ele teria de calçar pelo menos três números a mais", diz.

Nem mesmo o suposto desvio de mais de R$ 100 mil da produtora de vídeo onde pai e filho trabalhavam juntos preocupa, afirma o advogado. "O contador da empresa é ouvido e afirma que não houve desfalque. Por incrível que pareça, mesmo com a suspeita de desvio de dinheiro, os livros contáveis da empresa jamais foram apreendidos", disse.

As constantes brigas entre pai e filho também são minimizadas por Feller. "Eram justamente brigas comuns entre pai e filho que trabalham juntos. Rugai foi demitido umas 14 vezes pelo pai. Ele o mandava embora e, pouco depois, ligava perguntando se não vinha trabalhar. Brigas com o pai, todos têm. São mais de 6 mil folhas no processo e vamos desmontar cada uma das acusações", garante.

Sobre a arma utilizada no crime - que foi encontrada mais de um ano depois, em uma saída de águas pluviais onde Gil Rugai mantinha um escritório -, a defesa diz que também há controvérsias. "Há uma grande dúvida de como foi encontrada. Primeiro, o zelador do prédio disse que foi encontrada em uma caixa de esgoto, sendo que uma empresa especializada tinha feito uma limpeza no local seis meses antes. Depois, que foi em uma galeria de águas pluviais. A arma foi encontrada dentro de um saco plástico. Alguém que quer se desfazer de uma arma vai querer preservá-la para a perícia?", questiona.