Porto Seguro: Dirceu rebate críticas de FHC ao governo Lula

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu rebateu, neste sábado, as recentes declarações dadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a Operação Porto Seguro, que investiga a participação de membros do governo federal em atos de tráfico de influência. Fernando Henrique criticou o governo Lula, dizendo que ele foi responsável por deixar uma contribuição negativa para a cultura política brasileira. Em seu blog, Dirceu cutucou FHC dizendo que ele "não devia falar de relações privadas e de confusão entre público e privado. Fazê-lo é falar em corda em casa de enforcado".

"FHC devia ter o recato e a humildade de se calar, e não usar essa questão para fazer crítica a gestão do ex-presidente Lula. Pior é comparar sua administração na área social - e mesmo econômica - com a do presidente que o sucedeu. Aí já é desonestidade intelectual dele e do tucanato", completou Dirceu em defesa do ex-presidente Lula.

Em seu desabafo, o ex-líder do PT ainda ataca parte da imprensa, dizendo que "nenhuma tentativa tucana e da grande mídia de reescrever a história recente do Brasil apagará a revolução social e econômica que fizemos ".

Dirceu disse ainda que "um novo udenismo que age como no passado, de novo a serviço do conservadorismo e dos privilégios de certa elite que não se conforma e não aceita as mudanças empreendidas no País pelos governos do PT, porque teme perder seu poder e riqueza, acumulada a sombra e às custas do Estado".

Troca de e-mails

Na última semana, o nome de José Dirceu apareceu em trocas de e-mails feitas pela ex- chefe de gabinete da Presidência em São Paulo, Rosemary Noronha, com Paulo Vieira, ex-diretor da Agência Nacional de Águas (ANA), ambos investigados pela Polícia Federal. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, em 2009, Rosemary enviou um e-mail para Paulo Vieira dizendo que tentaria emplacar o seu nome para a diretoria da ANA, usando a influência de José Dirceu, tratado nos e-mails pela sigla "JD", segundo a Polícia Federal.

"Surgirão agora em meados de abril duas vagas. Pelo que consegui observar, quem vai definir mais a questão é a Dilma. A pessoa que acho que consegue fazer esse pedido a ela, de forma eficaz, é o JD. Na minha opinião, um pedido pessoal seu ao JD, tratando a questão como de interesse pessoal seu, ganha muito mais força", escreveu Rosemary, na época em que a presidente Dilma ainda era ministra-chefe da Casa Civil.

Em outro e-mail, Rosemary garante que vai conversar com Dirceu sobre a indicação para a agência. Em 4 de agosto de 2009, Rose informa Paulo: "O JD me chamou para conversar. Vou lá hoje a tarde e te dou notícias". Em 10 de agosto, um novo e-mail: "Estou aguardando notícias do JD, mas acho que o melhor é a Dilma. Mais tarde te dou retorno". Em uma hora, veio a resposta de Paulo Vieira, também por e-mail: "Sobre a ANA, também acho que a questão central é com a Dilma, fiquei muito animado com a possibilidade do JD falar sobre o assunto com ela. Qual a sua avaliação da questão até aqui? Fico por aqui. Abraço, Paulo". O nome de Paulo Vieira foi levado ao Senado em dezembro de 2009 e foi rejeitado.

Em nota, o Palácio do Planalto informou que "a então ministra-chefe da Casa Civil não tratou do assunto com as pessoas citadas, nem atuou para a indicação ao cargo de diretor na Agência Nacional de Águas (ANA)". Também por nota, Dirceu considerou "irresponsável" qualquer associação a seu nome com a Porto Seguro. Rosemary nega ter cometido tráfico de influência ou ato de corrupção enquanto esteve no cargo.

Operação Porto Seguro

Deflagrada em 23 de novembro de 2012, a operação Porto Seguro, da Polícia Federal, investiga um esquema de favorecimento de interesses privados em processos públicos. As agências nacionais de Transportes Aquaviários (Antaq), de Águas (ANA), e de Aviação Civil (Anac), a Advocacia-Geral da União (AGU), a Secretaria do Patrimônio da União (SPU), o Tribunal de Contas da União (TCU), a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e o Ministério da Educação (MEC) estão entre os órgãos envolvidos na operação.

Foram cumpridos mandados de busca e apreensão nas cidades de Cruzeiro (SP), Dracena (SP), Santos (SP), São Paulo e Brasília. Dezoito pessoas foram indiciadas suspeitas de participação no esquema, entre elas a chefe de gabinete da Presidência em São Paulo, Rosemary Novoa de Noronha, e o advogado-geral adjunto da União, José Weber de Holanda Alves.

As investigações apontam que os acusados cometeram crimes de corrupção ativa e passiva, tráfico de influência, falsidade ideológica, falsificação de documento particular, violação de sigilo funcional e formação de quadrilha. A presidente Dilma Rousseff determinou a exoneração ou afastamento de todos os servidores envolvidos.