PR: advogada acusa policiais militares de racismo e tortura

Policiais militares de Curitiba estão sendo acusados de prática de racismo, tortura e abuso de autoridade pela advogada Andréia Cândido Vitor. Ela, que é negra, disse ter sido agredida, chamada de "vadia" e "vagabunda" e ter sua profissão colocada em dúvida em virtude da cor da pele. As agressões teriam ocorrido no último sábado, no Bairro Alto, na região norte da capital paranaense.

Em vídeo divulgado na internet pela Associação Brasileira de Advogados Criminalistas (AbraCrim), Andréia relatou o fato em conversa com o presidente da entidade, Elias Mattar Assad. A assessoria de imprensa da Polícia Militar (PM) informou que foi instaurado um procedimento na corregedoria para apurar as denúncias. Foi requisitada a participação de membros do Ministério Público (MP) para acompanhar o caso.

Hoje pela manhã, a PM deve passar novas informações sobre o caso, incluindo a identificação dos policiais envolvidos e se eles permanecerão trabalhando durante as investigações.

A ocorrência policial, através da qual Andréia foi presa por desacato, teria se originado em uma perseguição a um motociclista que pilotava sem capacete. Em busca do infrator, os policiais teriam invadido, sem mandado, uma residência no bairro da advogada. Quatro pessoas teriam sido presas no local, entre elas Andréia.

No registro, anotado por PMs do 20º Batalhão, que participaram da operação, há a informação de que policiais teriam sido hostilizados em frente á residência no momento da abordagem. Cerca de 50 pessoas estariam em frente à residência. O boletim informa que foram registradas agressões aos soldados e desacato verbal. Um policial militar teria sido atingido por um soco. Por isso, a PM diz que foi necessário o uso de armas não letais, como taser, que provocam choques, para imobilização.

No vídeo divulgado pela Abracrim, seis pessoas, a maioria não identificada, relatam ter sofrido agressões. Nervosa e chorando, a advogada contou que ao notar a movimentação de policiais foi até ao local em companhia de uma líder comunitária para ver o que estava ocorrendo. Segundo ela, na casa invadida mora uma idosa e uma adolescente com deficiência de locomoção. A senhora e a menina aparecem em imagens captadas por moradores durante a confusão e foram inseridas no vídeo publicado pela Abracrim.

Andréia disse que ao interpelar um tenente, cujo nome ela não identificou, que estaria no comando da operação, teria sido tratada de forma grosseira e aos gritos: "saiam daqui agora, saiam daqui suas vagabundas, suas vadias. Vocês estão atrapalhando o nosso trabalho". Andréia conta que ao se identificar como advogada e informar que estaria acompanhando a operação, o tenente teria ligado uma câmera de vídeo e perguntado a ela onde estavam os documentos. Ela disse ter informado que os documentos estariam em sua residência, próxima do local. Mesmo assim, disse ter citado o seu nome e o número de registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), com o tenente gravando. Após perguntar se o policial queria mais alguma identificação, a advogada disse ter recebido voz de prisão. "Você está presa sua advogada... você é advogada, é? Então você está presa, sua vadia", teria afirmado o policial militar.

Andréia contou ter afirmado que precisava de um representante da OAB. Em resposta, segundo o relato dela, o tenente teria dito: "você não precisa de nada, sua vagabunda. Entra no carro que você vai ter o que você precisa". Na sequência, Andréia conta que foi algemada e colocada na viatura, em companhia de outras três pessoas, e encaminhada para um posto policial na praça Liberdade, no mesmo bairro.

No local, em companhia de mais 10 homens também presos, ela afirma que os detidos foram colocados de joelhos e torturados, com tapas e pontapés. Durante a suposta agressão, Andréia diz que uma policial, uma das mais violentas do grupo, segundo ela, teria se dirigido a ela com atitude racista. "Sua negra vadia, você não é advogada? Então você vai ver a advogada que você é, agora... você não é advogada? Advogada o que, com essa corzinha, vai...", teria dito a mulher, que aparece em imagens gravadas por populares.

Após o espancamento, os detidos foram levados para o 8º Distrito Policial. Lá, ela afirma ter ficado algemada em pé, ao lado de dois policiais, durante seis horas. Ela chegou a solicitar a presença de outra advogada, que teria comparecido ao local, mas não foi ouvida pelos policiais militares. Andréia conta que só foi entregue à Polícia Civil após a chegada de outros detidos que estavam recebendo atendimento no hospital. Um deles teria tido o braço fraturado, segundo ela. Após ser ouvida, foi liberada por volta das 4h da manhã do último domingo.