RS: gratificações segmentadas geram greve em hospital federal

Servidores do maior complexo hospitalar da América Latina, o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), localizado em Porto Alegre, decidiram entrar em greve a partir de quarta-feira, após a direção conceder gratificações de até 70% para médicos e odontologistas, e se recusar a conversar com outras 15 categorias, que englobam 7,2 mil funcionários, segundo afirmam sindicatos que representam os trabalhadores, que pedem isonomia de tratamento na mesa de negociações.

A greve, que não tem data para terminar, fará com que o efetivo de quase 8 mil funcionários seja reduzido a 30% do total, com triagem de pacientes na entrada. Na assembleia que decidiu pela greve, aproximadamente 2 mil trabalhadores decidiram pela paralisação.

Segundo o presidente da Associação de Servidores do GHC, Arlindo Nelson Ritter, existe "discriminação" da direção com a maioria das categorias de servidores. "Eles fizeram um acordo interno de trabalho com duas categorias, que envolvem 1,1 mil funcionários, e deixaram as outras 15 categorias sem qualquer expectativa", disse, citando que enfermeiros, administradores, advogados, entre outros, ficaram de fora.

Com orçamento anual de R$ 1,2 bilhão - oriundos do governo federal - o GHC é composto por quatros hospitais e 12 postos de saúde que atendem aproximadamente 30 mil pessoas mensalmente, 25% dos atendimentos de emergência na capital gaúcha. O grupo realiza 2,2 milhões de consultas, mais de 36 mil cirurgias e 3,3 milhões de exames anualmente. A direção é indicada por partidos políticos: PT e PCdoB, além de um menor número de indicados pelo PMDB.

Ritter diz ainda que os funcionários não estão sendo intransigentes, estão pedindo apenas a oportunidade de dialogar com a direção, mas acusa a diretoria de ser despreparada para a função que exerce a frente do grupo, e de se recusar a negociar. "São completamente reacionários, não sentam para conversar, os partidos indicam e tomam conta, não é uma gestão profissional (...) é um festival de má gestão".

Outro exemplo da falta de isonomia de tratamento, segundo Ritter, é a reivindicação da redução de carga horária para enfermeiros, que tramita no Legislativo há mais de 10 anos, mas que foi concedida aos médicos, que agora recebem extra pelos plantões. "O médico de uma UTI, por exemplo, ele trabalha de segunda a sexta e no final de semana ele é plantonista, recebe como hora extra, com 100%, 150% de aumento", diz. Segundo ele, esse é apenas um exemplo de reivindicações que foram atendidas para os médicos deixando as demais categorias de fora.

Até a tarde de terça-feira, os sindicatos que representam os funcionário ainda esperavam por alguma proposta, mas diziam que já não havia mais tempo hábil para impedir a greve, já que a assembleia para decidir sobre uma possivel proposta teria que ser publicada por meio de anuncio em jornal, algo que levaria ao menos 48 horas.

Segundo o Sindisaúde, que representa profissionais que atuam em hospitais, na reunião realizada no dia 6 de novembro com a administração do GHC, a resposta foi de que nenhuma das solicitações apresentadas na Pauta Unificada poderia ser atendida. Segundo um representante do GHC disse ao sindicato, as reivindicações apresentadas teriam impacto maior que o orçamento anual do grupo, que já tem R$ 576 milhões comprometidos com a folha de pagamento.

Terra entrou em contato com a direção do GHC, mas os responsáveis estavam em reunião com o Ministério Público durante a tarde e não puderam se encontrados.