Justiça não analisa pedido de Cachoeira, mas 2 recebem habeas 

O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) decidiu nesta segunda-feira não julgar o pedido de habeas-corpus para o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. De acordo com os desembargadores, a existência de uma reclamação a espera de julgamento no Superior Tribunal de Justiça (STJ) impede que o pedido de liberdade ao contraventor seja analisado. Na reunião de hoje, contudo, a 3ª Turma do TRF-1 concedeu habeas-corpus a outros dois supostos membros da quadrilha, José Olímpio Queiroga e Gleyb Ferreira da Cruz.

Na última quarta-feira, a sessão sobre a liberdade de Cachoeira foi suspensa após o pedido de vista do desembargador Cândido Ribeiro. Antes, no entanto, o relator do processo, Tourinho Neto, chegou a votar a favor de Cachoeira. Para o magistrado, a manutenção da prisão do bicheiro em nada contribuirá para o andamento da investigação. Tourinho Neto também destacou que "não deve se pautar pela imprensa". A 3ª Turma do TRF-1, que analisa o pedido de liberdade, é composta por três juízes.

Mesmo sem analisar o pedido da defesa de Cachoeira, os desembargadores concederam, na reunião de hoje, por unanimidade, habeas-corpus a José Olímpio de Queiroga Neto e Gleyb Ferreira da Cruz. Citado nas investigações como gerente da organização criminosa do bicheiro, Queiroga Neto seria o responsável pela exploração de casas de jogos na região do Distrito Federal. Já Gleyb é tido como o braço operacional do grupo de Cachoeira, apontado como um dos laranjas da quadrilha do contraventor.

Carlinhos Cachoeira 

Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.

Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram diversos contatos entre Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (GO), então líder do DEM no Senado. Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais, confirmou amizade com o bicheiro, mas negou conhecimento e envolvimento nos negócios ilegais de Cachoeira. As denúncias levaram o Psol a representar contra Demóstenes no Conselho de Ética e o DEM a abrir processo para expulsar o senador. O goiano se antecipou e pediu desfiliação da legenda.

Com o vazamento de informações do inquérito, as denúncias começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas, o que culminou na abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista do Cachoeira. O colegiado ouviu os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás, que negaram envolvimento com o grupo do bicheiro. O governador Sérgio Cabral (PMDB), do Rio de Janeiro, escapou de ser convocado. Ele é amigo do empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta, apontada como parte do esquema de Cachoeira e maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos.

Demóstenes passou por processo de cassação por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética da Casa. Em 11 de julho, o plenário do Senado aprovou, por 56 votos a favor, 19 contra e cinco abstenções, a perda de mandato do goiano. Ele foi o segundo senador cassado pelo voto dos colegas na história do Senado.