MPF denuncia marinheiros acusados de jogar clandestino ao mar 

A procuradora federal Antonia Lélia Neves Sanches denunciou os 19 tripulantes - 17 turcos e dois georgianos - do navio Seref Kuru, acusados de jogar ao mar, a oito milhas náuticas (14,4 km) da costa brasileira, o clandestino camaronês Wilfred Happy Ondobo. A decisão, protocolada no final de semana, foi obtida com exclusividade pelo Terra e publicada no sábado, com a versão dos marinheiros.

O marinheiro de convés, Orhan Satilmis, acusado por Ondobo como autor de chutes e socos contra ele, foi denunciado pela prática dos crimes de tortura, racismo e tentativa de homicídio. O comandante do navio Coskun Çavdar também foi denunciado por tortura e tentativa de homicídio. Os demais membros da tripulação foram acusados por atentar contra a vida do clandestino.

Durante a semana, a Justiça Federal deve decidir se aceita ou não as denúncias. No decorrer das investigações, o Ministério Público Federal havia solicitado a prisão preventiva do marinheiro Orhan Satilmis. O pedido foi indeferido em primeira instância. Os procuradores apelaram ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região, mas a liminar também foi negada.

Na cidade paranaense de Paranaguá, a 98 km de Curitiba, os marinheiros denunciados não saíram do hotel durante todo o domingo e houve aumento no número de seguranças no local. Procurado para comentar a denúncia, o advogado Giordano Vilarinho Reinert, responsável pela defesa dos tripulantes do Seref Kuru, estava com o celular desligado. A procuradora não foi localizada.

Sem dormir

No final de junho, o navio Seref Kuru foi retido no porto de Paranaguá após o clandestino ter sido encontrado flutuando em um palhete amarrado em galões de plásticos vazios. Registrado em Malta, o Seref Kuru é operado por um armador turco.

Na madrugada de sexta-feira, o navio zarpou rumo à África, carregado de açúcar, com uma nova tripulação que veio de Turquia para substituir os marinheiros denunciados Em depoimento à Polícia Federal, a vítima disse que entrou clandestinamente no navio no porto de Douala em 16 de junho. Na versão do clandestino, após oito dias escondido embaixo do motor do guindaste, ele teria saído à procura de alimentos e água. Ao encontrá-lo, alguns marinheiros passaram a agredi-lo com chutes e socos e depois o trancaram em uma minúscula cabine.

No local, ele teria ficado preso durante quatro dias, sem poder dormir. A todo o momento, durante o dia e a noite, os marinheiros batiam na porta. Um dos tripulantes, identificado mais tarde como Orhan Satilmis, teria lhe dito que não gostava de negros, pois são todos animais.

No dia 27 de junho, após fundear a embarcação próxima à costa, os tripulantes teriam entregado a ele, 150 euros, US$ 30 e uma lanterna para que chegasse ao Brasil. Ondobo declarou que não sabia nadar. Mesmo assim, ele afirmou que os homens disseram que "era a única saída".