Ex-segurança de Demóstenes pede para ficar calado em CPI 

A defesa do capitão da Polícia Militar de Goiás Hrillner Braga Ananias, ex-segurança do senador cassado Demóstenes Torres, pediu nesta segunda-feira, no Supremo Tribunal Federal (STF), para que ele fique calado na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira. O depoimento de Ananias está marcado para a próxima quarta-feira, às 10h15.

O pedido de habeas-corpus foi entregue ao presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB). Além do direito ao silêncio, Hrillner pede a assistência de advogado e a garantia de não ser submetido ao compromisso de dizer a verdade.

Segundo a defesa, a convocação baseou em requerimento do senador Pedro Taques (PDT-MT), segundo o qual o capitão da PM teria sido citado em diversas ligações entre Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e outros integrantes de sua suposta organização criminosa, além de figurar como interlocutor direto em outras. "O ato de convocação não registra se Hrillner será ouvido como investigado ou como testemunha", afirmou seu advogado.

Ananias pede, ainda, respaldo judicial quanto à negativa de deslocamento de Goiânia (GO), onde mora, para Brasília. A defesa lembra que o Código Penal assegura o direito de que Ananias seja ouvido na comarca em que tem domicílio, "não lhe sendo possível exigir que, às próprias custas, se desloque a Brasília para tal finalidade".

Ex-segurança do senador Demóstenes Torres, que perdeu o mandato depois de ter sido acusado de envolvimento com o grupo de Carlinhos Cachoeira, Hrillner Ananias teve o nome citado em ligações telefônicas captadas pela Polícia Federal durante as investigações da Operação Monte Carlo, que resultou na prisão do contraventor goiano.

Foram quase sete anos de assessoramento ao parlamentar cassado e, na opinião do senador Pedro Taques, autor do requerimento que resultou na convocação de Hrillner Ananias, ele poderia prestar esclarecimentos relevantes à comissão.

Carlinhos Cachoeira 

Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.

Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram diversos contatos entre Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (GO), então líder do DEM no Senado. Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais, confirmou amizade com o bicheiro, mas negou conhecimento e envolvimento nos negócios ilegais de Cachoeira. As denúncias levaram o Psol a representar contra Demóstenes no Conselho de Ética e o DEM a abrir processo para expulsar o senador. O goiano se antecipou e pediu desfiliação da legenda.

Com o vazamento de informações do inquérito, as denúncias começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas, o que culminou na abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista do Cachoeira. O colegiado ouviu os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás, que negaram envolvimento com o grupo do bicheiro. O governador Sérgio Cabral (PMDB), do Rio de Janeiro, escapou de ser convocado. Ele é amigo do empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta, apontada como parte do esquema de Cachoeira e maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos.

Demóstenes passou por processo de cassação por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética da Casa. Em 11 de julho, o plenário do Senado aprovou, por 56 votos a favor, 19 contra e cinco abstenções, a perda de mandato do goiano. Ele foi o segundo senador cassado pelo voto dos colegas na história do Senado.