Delegado da PF diz que mensalão era para lavagem de dinheiro

O delegado da Polícia Federal Luís Flávio Zampronha, que investigou de 2005 a 2011 a existência do mensalão, afirmou que o esquema deveria ser tratado como um grande sistema de lavagem de dinheiro, e não só como canal para a compra de apoio político no Congresso. 

O delegado apontou ainda algumas divergências entre o indicado em sua investigação e a denúncia da Procuradoria-geral da República, que começou a ser julgada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal em 2 de agosto. 

Zampronha afirmou que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares poderiam ter sido denunciados também por lavagem de dinheiro, acusação que, segundo ele, tem as provas mais robustas e, no entanto, não foi feita pelo Ministério Público. "Há vários elementos que indicam que ele sabia dos empréstimos e dos repasses para os políticos", disse o delegado sobre Dirceu. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.

"O dinheiro não viria apenas de empréstimos ou desvios de recursos públicos, mas também poderia vir da venda de informações, extorsões, superfaturamentos em contratos de publicidade, da intermediação de interesses privados e doações ilegais", disse o advogado que ainda afirmou que o dinheiro não era voltado só para compra de votos, mas também para o "custeio da máquina partidária e de campanhas eleitorais e para benefício pessoal dos integrantes". 

Zampronha considera haver "injustiças" na denúncia a réus que eram subordinados dos operadores e beneficiários do mensalão. "Os funcionários não sabiam o que estava acontecendo", afirmou o delegado, citando Anita Leocádia (assessora parlamentar) e Geiza Dias (gerente da SMP&B, agência do publicitário Marcos Valério). Outra discordância é sobre os empréstimos obtidos nos bancos Rural e BMG, que, segundo o MP, eram de fachada. Para Zampronha, os empréstimos eram verdadeiros e seriam quitados com dinheiro a ser arrecadado pelo esquema - a exemplo do que teria ocorrido no chamado "mensalão mineiro" (suposto esquema de Valério com tucanos em Minas em 1998). 

Ele ainda considerou um erro a denúncia contra quatro dirigentes do Banco Rural, pois não teria ficado configurada a ligação pessoal deles com as operações. Zampronha afirmou ainda que os recursos desviados do fundo Visanet (apontado como fonte do mensalão) e repassados à agência de Marcos Valério eram públicos, pois pertenciam ao Banco do Brasil. "O dinheiro era do Visanet, mas repassado ao Banco do Brasil. A partir daí, o dinheiro passava a ser do banco e o Visanet não tinha mais ingerência nas decisões sobre a destinação dos recursos".