Advogado diz que mensalão foi obra de Lula, que não comenta 

Pela primeira vez nas oito sessões de julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi apontado não apenas como beneficiário, mas também como o mandante do suposto esquema de compra de votos de parlamentares. Advogado do delator do escândalo, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), Luiz Francisco Corrêa Barbosa questionou o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, por não ter denunciado Lula, que, segundo ele, "não só sabia como ordenou" o mensalão. Procurada, a assessoria do ex-presidente disse que não comentaria as declarações de Corrêa.

Mais comedido, o primeiro defensor a falar nesta segunda-feira disse que o dinheiro distribuído aos partidos da base aliada do governo era do PT e serviu para o pagamento de dívidas de campanha. O advogado Bruno Mascarenhas Braga admitiu que Bispo Rodrigues recebeu dinheiro, "mas ele veio do PT, com destinação completamente diferente do que apregoa a acusação. Foi exclusivamente para o pagamento de dívidas de campanha das eleições de 2002", afirmou, reiterando a estratégia adotada ao longo das defesas dos reús do chamado "núcleo político" do mensalão.

Para o advogado de Emerson Palmieri, apontado pelo Ministério Público como tesoureiro informal do PTB, a denúncia contra o seu cliente tem como objetivo descreditar Roberto Jefferson. "Era preciso desmoralizar Emerson Palmieri, cortando assim uma das pernas de sustentação de Roberto Jefferson", afirmou Itapuã Prestes de Messias, acrescentando que a partir de então surgiu uma lista com supostos saques feitos por integrantes do partido.

Ronaldo Garcia Dias também admitiu que representa o ex-deputado Romeu Queiroz recebeu dinheiro, mas seu cliente não teria utilizado a quantia repassada ao PTB em proveito próprio. Segundo a defesa, os recursos vieram da siderúrgica Usiminas e do PT, sobre o qual, ainda de acordo com o advogado, não pairavam suspeitas à época.

Em um fechamento de sessão eloquente, o advogado Inocêncio Coelho chamou de "anêmicas" as provas contra seu cliente, o ex-deputado federal José Borba. Coelho afirmou que a acusação da Procuradoria Geral da República se baseia em depoimentos de Marcos Valério e Simone Vasconcelos, que apresentariam contradições inclusive na soma da quantia supostamente recebida pelo então parlamentar do PMDB.

O mensalão do PT

Em 2007, o STF aceitou denúncia contra os 40 suspeitos de envolvimento no suposto esquema denunciado em 2005 pelo então deputado federal Roberto Jefferson (PTB) e que ficou conhecido como mensalão. Segundo ele, parlamentares da base aliada recebiam pagamentos periódicos para votar de acordo com os interesses do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Após o escândalo, o deputado federal José Dirceu deixou o cargo de chefe da Casa Civil e retornou à Câmara. Acabou sendo cassado pelos colegas e perdeu o direito de concorrer a cargos públicos até 2015.

No relatório da denúncia, a Procuradoria-Geral da República apontou como operadores do núcleo central do esquema José Dirceu, o ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino, o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares, e o ex- secretário-geral Silvio Pereira. Todos foram denunciados por formação de quadrilha. Dirceu, Genoino e Delúbio respondem ainda por corrupção ativa.

Em 2008, Sílvio Pereira assinou acordo com a Procuradoria-Geral da República para não ser mais processado no inquérito sobre o caso. Com isso, ele teria que fazer 750 horas de serviço comunitário em até três anos e deixou de ser um dos 40 réus. José Janene, ex-deputado do PP, morreu em 2010 e também deixou de figurar na denúncia.

O relator apontou também que o núcleo publicitário-financeiro do suposto esquema era composto pelo empresário Marcos Valério e seus sócios (Ramon Cardoso, Cristiano Paz e Rogério Tolentino), além das funcionárias da agência SMP&B Simone Vasconcelos e Geiza Dias. Eles respondem por pelo menos três crimes: formação de quadrilha, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

A então presidente do Banco Rural Kátia Rabello e os diretores José Roberto Salgado, Vinícius Samarane e Ayanna Tenório foram denunciados por formação de quadrilha, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro. O publicitário Duda Mendonça e sua sócia, Zilmar Fernandes, respondem a ações penais por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O ex-ministro da Secretaria de Comunicação (Secom) Luiz Gushiken é processado por peculato. O ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato foi denunciado por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) responde a processo por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A denúncia inclui ainda parlamentares do PP, PR (ex-PL), PTB e PMDB. Entre eles o próprio delator, Roberto Jefferson.

Em julho de 2011, a Procuradoria-Geral da República, nas alegações finais do processo, pediu que o STF condenasse 36 dos 38 réus restantes. Ficaram de fora o ex-ministro da Comunicação Social Luiz Gushiken e do irmão do ex-tesoureiro do Partido Liberal (PL) Jacinto Lamas, Antônio Lamas, ambos por falta de provas.