Raul Filho assume que errou ao procurar Carlinhos Cachoeira

O prefeito de Palmas, Raul Filho (PT), disse que errou ao procurar o bicheiro Carlinhos Cachoeira para pedir contribuição de R$ 150 mil para a campanha e teve a "infelicidade de ter sido filmado". Raul Filho depôs nesta terça-feira na CPI do Cachoeira.

"Muitos fazem mas não são pegos, (...) Eu também errei, eu tive a infelicidade de ser filmado," lamentou o prefeito. O senador Randolfe ROdrigues (PSOL-AP) rebateu. "Infelicidade para o senhor e felicidade pra nós e para a opinião pública."

Raul Filho admitiu que foi apresentado a Cachoeira, mas afirma que o encontro teria acontecido "ocasionalmente" em 1994 e não mais se repetiu até a reunião de 2004, ocasião flagrada em vídeo e divulgada recentemente. O prefeito disse que na época em que conversou com Cachoeira, era apenas candidato, e que "precisava captar recursos para pagar contas de campanha, como combustível, carro de som e militante," mas afirmou que mesmo diante da necessidade de dinheiro a ajuda de Cachoeira não foi concretizada. "O senhor Carlos Cachoeira não fez doação para a minha campanha, em que pese a expectativa criada que não chegou a se concretizar," defendeu-se.

No encontro, que foi filmado por Cachoeira, Raul estava acomanhado por um amigo, Sílvio Roberto, que negociou a transferência de uma doação de R$ 150 mil, afirmando que seria "pulverizada" em contas que não tinham relação com a campanha, para burlar a fiscalização.

Questionado sobre isso, Raul Filho disse que "a afirmação foi indecente, mas foi feita pelo Sílvio, não por mim." Ele disse que não autorizou Sílvio a falar em seu nome e que ele foi ao encontro por conta própria. Depois da eleição, disse que Sílvio não assumiu nenhum cargo. "O Sílvio fala por ele. Em meu nome falo eu."

Durante o depoimento, um dos ouvintes disse estranhar o fato de o deputado Rubens Bueno (PPS-PR) citar dados do vídeo do encontro de Raul com Cachoeira, sendo que ele havia pedido para ver as gravações. O deputado reclamou a presença da "torcida organizada" para defesa de Raul Filho. "Pode ser alguém da prefeitura ou um jagunço do prefeito", disse o parlamentar. O ouvinte foi identificado depois como sendo o secretário municipal de Desenvolvimento Social de Palmas, Robledo Suarte.

Vídeo

Raul Filho foi convocado para explicar denúncia exibida pelo programa Fantástico, da Rede Globo. A emissora exibiu um vídeo gravado pelo contraventor Carlos Cachoeira em 2004, durante a campanha que elegeu Raul pela primeira vez.

O vídeo mostra Cachoeira e Raul entrando em uma sala com assessores para uma reunião. Eles conversam por quase uma hora. O então candidato pede contribuição para sua campanha e, em contrapartida, diz que há em Palmas "uma série de oportunidades a serem exploradas, no campo imobiliário, transporte e a concessão de água".

Carlinhos Cachoeira

Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.

Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram contatos entre Cachoeira e o senador democrata Demóstenes Torres (GO). Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais.

Nos dias seguintes, reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo afirmaram, respectivamente, que o grupo de Cachoeira forneceu telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, e que o senador pediu ao empresário que lhe emprestasse R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo. Na conversa, o democrata ainda vazou informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes.

Pressionado, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado em 27 de março. No dia seguinte, o Psol representou contra o parlamentar no Conselho de Ética e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski autorizou a quebra de seu sigilo bancário.

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido havia decidido abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda, encerrando a investigação interna. Mas as denúncias só aumentaram e começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas.

Após a publicação de suspeitas de que a construtora Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, faça parte do esquema de Cachoeira, a empresa anunciou a demissão de um funcionário e uma auditoria. O vazamento das conversas apontam encontros de Cachoeira também com os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Em 19 de abril, o Congresso criou a CPI mista do Cachoeira.

Com informações da Agência Câmara.