Turbulência Global faz emergentes irem à busca de maior importância do G-20

G20 como fórum do sistema financeiro reflete otimismo dos emergentes por maior representatividade.

As crises econômicas que afetam a economia mundial desde 2008 têm um perfil diferente das anteriores. Pela primeira vez elas atingiram o chamado "centro de comando do sistema capitalista". Assim expandiram-se das grandes potências para os países em desenvolvimento e as menos desenvolvidas.

Nas crises passadas aonde foram estabelecidos conjunturas mundiais, como o padrão-ouro e o sistema de Bretton Woods, no pós II Guerra Mundial, os Estados Unidos eram capazes de liderar o mundo. Entretanto, atualmente, não existe uma potencia hegemônica para assegurar a estabilidade financeira. Por isso, uma reforma nas instituições se faz necessárias.

A ascensão das potências emergentes nos últimos anos ressalta a característica multipolar do sistema internacional. Carlos Frederico Gama, professor do Instituto de Relações Internacionais da (PUC-Rio), comenta o processo de expansão do poder por parte dos países em desenvolvimento.

“Há analises que enfatizam o dinamismo dos emergentes apontam uma estrutura em transformação, rumo à multipolaridade. Outras análises enfatizam o declínio da potencia hegemônica e a incapacidade presente dos emergentes em substituí-la, ressaltam uma estrutura unipolar em declínio. Ambas as análises procedem, na medida em que há uma transformação na relação entre potência e emergentes.”, explicou o professor.  

O G-20 foi criado em 1999, pelas potências que tinham o poder de decisão - G-7 + Rússia - num contexto de crise em países como Brasil, México, Rússia e no Leste Asiático, com o objetivo de oferecer orientações e ditar as regras, de nações de prestígio sobre as em desenvolvimento. O debate começou entre Ministros de Economia e Presidente de Bancos Centrais. De acordo com Arthur Bernardes do Amaral,também professor do Instituto de Relações Internacionais da (PUC-Rio), aconteceu uma relativa inversão de papel na cúpula.

“O mundo vive um relativo vácuo de poder. Há falta de liderança. Por isso, os países emergentes acabam influenciando o G-20. O fator financeiro também é outro ponto relevante, já que eles passaram a concentrar um poder econômico que não tinham em outros tempos”, afirmou.

Arthur Bernardes acrescenta que a China pode ser o líder dos emergentes para propor reformas.

“A China por conta do poder econômico pode ser um líder alternativo. Esse país é um grande comprador mundial e tem um grande mercado consumidor“, acrescentou. Afirmando ainda que o Brasil ainda vive uma postura tímida.

Pequenas reformas já haviam sido realizadas nos últimos anos em favor dos países emergentes, na tentativa de possibilitar que as instituições fornecem liquidez e crédito para países em dificuldade. No caso do FMI(Fundo Monetário Internacional) através de investimento de longo prazo, já o Banco Mundial focando em questões como a promoção do desenvolvimento, redução das assimetrias e tentativa de estabilidade. 

“Existe por parte desses Estados argumentos em prol de mais representatividade e democracia em relação aos processos de tomada de decisão e formulação de normas internacionais, ou respostas para crises globais” analisou Danilo Marcondes, professor do Instituto de Relações Internacionais da (PUC-Rio).

Na última semana, na Cúpula do México, em Los Cabos, o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) acertou a formação de um fundo virtual de reservas para permitir operações de troca entre si. Além de terem acordado em fazer um novo aporte ao FMI - valor estimado em US$70 bilhões. Juntos, os países têm o maior volume de reservas do mundo, de mais de US$4 trilhões.

Em 2011, foi aprovada a reforma na eleição dos cargos de alto escalão duas instituições, inclusive na escolhe mais democrática de seus presidentes, uma vez que a escolha tradicionalmente foi sempre de um europeu – para o FMI e um americano – para o Banco Mundial. Segundo Carlos Frederico, as economias emergentes perderam a chance de testar seu poder reformista dentro da FMI, quando da ex-ministra de finanças francesa Christine Lagarde, foi eleita diretora-geral.

“A cautela que demonstraram no processo de escolha da diretora-geral tem múltiplos significados - os emergentes não estão tão unidos em sua prática nos foros internacionais, nem tampouco dedicam tanta atenção às estruturas vigentes quanto poderiam, tendo em vista seu investimento em novas instituições e práticas renovadoras (alianças como os BRICS, reforço das posições na OMC e conferências da ONU, criação de bancos de desenvolvimento e cestas de moedas dos países emergentes etc.)”, explicou o especialista.

Sucesso das periferias não fica restrito ao fórum do G-20. Em diversas oportunidades o BRICS  ou do IBAS (Índia, Brasil, África do Sul) articularam posições comuns sobre o enfrentamento da crise e o compromisso com mudanças estruturais à organização de temas econômicos em bases mais democráticas e representativas. Segundo Carlos Frederico Gama, o sucesso desses ainda pode ser visto com animação, já que a tendência será o grupo produzir ideias mais maduras com o tempo.

“BRICS, IBAS, assim como o G-77 durante o período da Guerra Fria, só passaram a existir por desejo de seus criadores. Seu sucesso dependerá do investimento de seus criadores, bem como do aproveitamento das oportunidades e possibilidades do contexto (de crise) no qual foram criados e se desenvolvem. Vale lembrar que todos nasceram como iniciativas informais e se intensificaram com o tempo”, finalizou.

Reportagem: Rômulo Diego Moreira