Delegada aponta sucessão de erros em caso de bebê que ingeriu ácido em BH 

A delegada Maria Helena Rezende, que investiga a troca de medicamentos por uma técnica de enfermagem que medicou uma criança de dois anos com ácido ao invés de um sedativo no Hospital São Camilo, do bairro Floresta, na região leste de Belo Horizonte, disse estar "assustada com os depoimentos dos envolvidos". Para a delegada, "houve uma sucessão de erros graves".

Já prestaram depoimentos na Delegacia Seccional Leste a técnica de enfermagem e a médica que atenderam o pequeno Alan Breno Castro. No dia 8 de abril, ele foi internado no Hospital São Camilo após bater a cabeça. Pouco antes de uma tomografia receitada pela médica, o menino foi medicado com o ácido.

"Fiquei assustada com os depoimentos. A técnica de enfermagem disse que foi induzida por uma outra técnica a pegar o que seria o medicamento no posto de enfermagem, e não na farmácia. A pessoa que iria aplicar o medicamento percebeu que a embalagem era diferente e pensou que o remédio fosse genérico. Questionei se ela tem formação suficiente para fazer tal avaliação. Ela disse que não, mas mesmo assim aplicou", disse a delegada, que acredita em um erro conjunto.

"A médica também errou, no meu entendimento, porque segundo o que ela nos relatou, ela é recém-formada e, diante da situação, entrou em contato com o setor de toxicologia do Hospital João XXIII para saber o que deveria fazer. Eles então pediram que ela desse Dipirona e lavasse a boca do menino. Ela fez isso e ainda deixou ele em observação por 12 horas e o mandou pra casa. Questionei como ela somente lava a boca da criança, se o volume maior de ácido estava no estômago? Vou pedir um legista para avaliar a postura da médica. Vejo que não somente uma pessoa, mas todos envolvidos erraram", disse a delegada.

De acordo com a delegada responsável pelo caso, mais cinco pessoas devem ser ouvidas até sexta-feira. Com inquérito concluído, cada envolvido responderá separadamente.

"A responsabilidade penal neste caso é individual, pois cada profissional errou sozinho e cada um terá uma punição. O hospital responderá civilmente pelo erro conjunto dos funcionários. Quando concluir o inquérito, vou enviar uma cópia para o Conselho Regional de Medicina e de Enfermagem para eles avaliarem o que deve ser feito com os profissionais", afirmou. A assessoria de comunicação do Hospital São Camilo informou que a enfermeira foi afastada do cargo.

Família não pensa em processo

A dona de casa Érica Aparecida de Castro Novaes, 31 anos, disse que ficou desesperada quando o filho começou a passar mal com as queimaduras provocadas pelo ácido: "Não gosto de lembrar do passado e nem de falar do momento que fiquei sabendo da notícia. Graças a Deus a recuperação foi rápida. Coloquei Deus na frente desse momento e com a graça de Deus, ele está curado, mas foi desesperador. Foi uma dor que não desejo pra ninguém", disse.

"A recuperação dele está indo. Ele passou a noite bem. Na segunda-feira ele faz nova endoscopia e só através dela vamos saber de alta. Quero levá-lo pra casa são e salvo. Nesse momento não estamos pensando em processo contra o hospital, vamos pensar nisso só depois. Só espero que Deus tenha piedade dela (enfermeira), Por isso meu filho está se recuperando cada vez mais rápido", concluiu a mãe de Alan.


Outro caso grave

Davi tem apenas quatro meses de vida e passou por situação parecida no último domingo no Hospital da Baleia, também na região leste de Belo Horizonte. De acordo com Israel Abraão do Amaral Lopes, 21 anos, pai de Davi, uma enfermeira teria trocado as sondas e ao invés de soro teria injetado leite na veia do bebê.

O menino, que tem saúde frágil, estava internado há uma semana devido a uma pneumonia. Ele ainda é portador da Síndrome de Down: "Quando vim ao hospital no sábado (passado), ele já estava bem melhor, riu pra mim. Fui embora tranquilo pensando que ele estava bem. Quando foi de madrugada, minha esposa me ligou. Não consegui entender o que ela falava, ela estava desesperada. Quem conversou comigo foi uma pessoa que estava no quarto e me explicou o que tinha acontecido", disse.

Ainda segundo Lopes, foi a esposa dele quem teria percebido o erro. "Minha esposa acordou para trocar a fralda e viu que ele estava chorando. Ela falou (com a enfermeira) que o menino estava pior e a enfermeira disse que não, querendo tranquilizar. A enfermeira não desligou a bombinha de leite (que estava trocada). Minha esposa que desligou, já tinha 45 minutos que ele tava recebendo leite. Ela correu pra chamar a médica. Depois ele deu duas paradas cardíacas. Deram adrenalina pra ele e levaram para o CTI", contou.

"Por mais que você seja forte é difícil. As psicólogas estão indo lá, conversam com a gente. Minha esposa que está muito abalada. A gente estava vendo um vídeo dele ontem brincando e ela chorou, mas creio que ele vai sair dessa. Eu tenho boletim de ocorrência, mas estou sem saber o que fazer. Temos que olhar o lado humano, não posso querer punição para ela. Às vezes ela nem tem condições financeiras para pagar indenização. Ela (a enfermeira) chegou até a gente e pediu perdão. Não tenho rancor nenhum. A justiça que quero agora é meu filho, se for da vontade de Deus também", concluiu Israel.

Um inquérito foi aberto pela Polícia Civil para investigar o caso de Davi. O delegado Ricardo Augusto de Faria, da 4ª Delegacia Sul, deve começar a ouvir os envolvidos até o final desta semana. A enfermeira do Hospital da Baleia, que trabalha no local há 27 anos, também foi afastada temporariamente, segundo a assessoria de imprensa do hospital.

De acordo com nota do Hospital da Baleia, o bebê permanece internado no Centro de Tratamento Intensivo Pediátrico (CTIP) com quadro estável e respirando com ajuda de aparelhos.