Projeto prepara professores para o ensino de ciências em Libras

Material didático escasso e professores despreparados estão entre as principais dificuldades enfrentadas pelos alunos surdos em sala de aula. Para atender a essa demanda, um projeto da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP) introduz docentes de ciências à Linguagem Brasileira de Sinais (Libras) e estuda novas maneiras de levar o conhecimento aos estudantes.

Coordenado pela professora do curso de Licenciatura em Ciências Naturais Valéria Cazetta e com monitoria do universitário Rafael Dias Silva, o projeto Libras: Um universo silencioso ensina gratuitamente a linguagem dos surdos aplicada ao ensino de ciências para professores e alunos da USP e da rede municipal e estadual de ensino de São Paulo.

As aulas são divididas em duas etapas. A primeira, aberta à comunidade da USP Leste e região, serve de introdução à Libras e já capacitou cerca de 150 pessoas, entre professores da educação básica, funcionários e alunos da instituição e policiais. A segunda tem como objetivo preparar professores de ciências para dar aulas na linguagem dos sinais.

Ainda que o profissional tenha a ajuda de um intérprete em sala de aula - o que é recomendado por especialistas -, ele deve dominar a linguagem de sinais. É o que afirma a coordenadora do projeto. "Em uma sala de ouvintes e surdos, o professor precisa compreender as necessidades dos dois grupos. Mesmo que ele seja auxiliado por outro profissional, deve saber a melhor maneira de se comunicar, além de conhecer as diferentes linguagens para o ensino", ressalta Valéria.

Para a coordenadora, não basta apenas formar professores, mas também é preciso produzir e adaptar materiais didáticos tanto em português quanto em Libras. "Esse é um grande problema, porque simplesmente não existe material bilíngue para o ensino de ciências, geografia, história e outras áreas do conhecimento. O cuidado com a linguagem visual deve ser grande, pois a visualidade é primordial no aprendizado do surdo", diz.

Tradução simultânea

Ao lado da professora Verônica Marcela Guridi, da USP Leste, e da ONG Mais Diferenças, coordenada por Carla Mauch, Valéria tem pesquisado as principais carências da área. Nas reuniões de pesquisa, participam quatro ou cinco surdos e um intérprete em Libras formado em ciências. "Em uma de nossas reuniões, um biólogo ministrou um aula sobre corpo humano. A aula foi traduzida simultaneamente em Libras pelo intérprete formado em ciências. O professor lançou mão tanto do modelo do corpo humano em três dimensões, quanto de desenhos feitos na lousa. Os surdos interrompiam a aula a todo instante, porque a qualquer 'ruído' na comunicação gestual do intérprete e na comunicação visual do professor que impedisse a compreensão daquilo que estava sendo ensinado, eles se manifestavam. Daí, notamos a importância de um grupo multidisciplinar", exemplifica.

Quando a sala de aula reúne ouvintes e surdos, as exigências são ainda maiores. E a professora alerta: as escolas não estão preparadas para atender a essas demandas. "Além de o professor dominar a linguagem de Libras, é importante que ele tenha um intérprete, pois está atendendo a dois públicos com necessidades diferentes. É difícil trabalhar neste contexto não convencional. A inclusão de pessoas com surdez na escola regular exige a busca de meios para beneficiar a participação e aprendizagem dos surdos tanto na sala de aula como no Atendimento Educacional Especializado", afirma.

Agora, Valéria se dedica à pesquisa para produção de material didático bilíngue, em Libras e português. O curso de extensão sobre Libras nas Ciências seguirá com aulas gratuitas e abertas à comunidade. Informações sobre módulos e inscrição estão disponíveis no site www.librasnaciencia.com.br.

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), em 2010, 71.283 alunos deficientes auditivos, surdos e portadores de surdez e cegueira estiveram matriculados na educação básica. Esse número se divide entre educação especial (escolas especializadas e turmas ou classes especiais no ensino regular) ou classes comuns, que reúnem estudantes ouvintes e surdos. Os números finais referentes a professores ainda não divulgados pelo instituto, mas dados preliminares apontam que, no ano passado, 25.847 profissionais ministravam aulas em classes especiais e escolas exclusivas, enquanto 694.350 se dedicavam a classes comuns de educação especial. Essas informações se referem a professores que trabalham com portadores de diversos tipos de deficiências - entre elas, a surdez. Até 2015, todos os cursos de licenciatura e pedagogia do Brasil serão obrigados a contratar um profissional de Libras, que auxiliará na formação dos futuros profissionais da docência da educação básica.