Maurren mira Rio 2016: "não é a idade que vai me tirar das pistas"

Atual campeã olímpica do salto em distância, Maurren Maggi está no México para a disputa dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara em busca do tricampeonato do torneio. Medalha de ouro em Winnipeg (1999) e no Rio de Janeiro (2007), não foi a Santo Domingo, em 2003. Às vésperas da competição, teve encarar uma suspensão de dois anos pela presença de um esteróide anabólico (clostebol) em seu exame antidoping. À época, alegou contaminação por um creme cicatrizante usado após uma sessão de depilação.

Mais do que o Pan, perdeu a chance de ir a Atenas disputar os Jogos Olímpicos do ano seguinte. No período de suspensão, foi mãe de Sophia, sua única filha, e só decidiu retomar a carreira em 2006. Dois anos depois, com a marca de 7,04 m, se tornaria a primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha de ouro individual olímpica, em Pequim. Em uma conversa a atleta lembra do passado e faz planos para um futuro que vai até os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

"Por mim, depois de tudo o que eu passei, se eu tivesse parado em 2008, teria sido em grande estilo", diz a atleta. Não parou e não pretende parar tão cedo. Aos 35 anos, acredita que pode chegar ao Rio de Janeiro, ainda em forma. "Não vai ser a idade que vai me tirar das pistas. Não tem como parar se eu tenho como evoluir", afirma.

Na mochila que trouxe para os Jogos Pan-Americanos, o número 1.215 - de inscrição na prova que deu a ela a medalha olímpica - está preso por um alfinete. "É a bolsa que eu usei em Pequim, foi a única coisa que eu trouxe de lá, para me trazer sorte aqui", conta.

Maurren diverte-se ao lembrar que em 2008, sua filha, então com três anos, ficou irritada com ela porque queria que a medalha fosse de prata e não de ouro. "Agora ela quer ouro. Depois de ter dado um monte de bronca em mim, logo que eu cheguei de Pequim, ela viu quanto benefício a gente teve nas nossas vidas e sem dúvida nenhuma ela quer o ouro em todas agora".

Depois de uma viagem de mais de 17 horas até o México - que incluiu um percurso de mais de 400 km de ônibus até San Luís Potosí, onde a equipe de atletismo se prepara - Maurren lamentou ter perdido o dia de treino. "Foi muito cansativo. Eu estava esperando já começar a treinar terça. Só comecei a treinar na quarta-feira. Mas faz parte". É com esse espírito que ela chega ao Pan.

Leia os principais trechos da entrevista:

Motivação para o Pan

"Espero sair tricampeã. A minha motivação vem do dia-a-dia, de estar treinando, me dedicando, de ter deixado a minha filha em São Paulo, de buscar um ideal. É a minha maior motivação, sem dúvida nenhuma".

Ansiedade

"Eu estou ótima. Se eu não estou bem, eu tenho de tentar ficar bem da melhor maneira possível. Mas eu estou muito bem, estou bem focada. Estou querendo treinar. Tem ainda uma semana para a competição e estou ansiosa demais".

Adversárias

"Todas as que estarão na prova. As americanas, sem dúvida nenhuma, sempre tem as meninas que saltam. Pode não vir a melhor do mundo. Uma menina das Bahamas, as cubanas, a colombiana que está saltando muito. Tem gente saltando. Eu acho que vai ser uma prova bonita e de saltos longos para todas elas".

Derrota no Mundial de Daegu

"Não foi a única derrota nem a primeira derrota da minha vida. Tenho certeza que não será a última, mas a gente tem de estar sempre preparada. A gente treina sempre para estar mostrando o melhor e quando acontece uma fatalidade dessa fica meio sem chão. Mas rapidinho tem de voltar à ativa porque tem outras provas".

Férias

"Depois do Pan eu tenho três semanas de descanso. Eu quero ficar com a minha filha, grudada o tempo inteiro, e depois vou me preparar. Após essa competição, eu já vou estar focando em Londres".

Mudanças após Pequim

"O assédio, o compromisso mudou, mas o treinamento não, continua o mesmo. Em time que se ganha não se mexe. A gente fez um bom trabalho até Pequim e sem dúvida nenhuma o trabalho tem de continuar. É preciso estar sempre trabalhando, inovando".

Estratégia para Londres

"A gente só vai focar as melhores competições para não desgastar e chegar nas Olimpíadas cansada. Tem dois picos. Um, um pouco antes do meio do ano, e outro em Londres. É menos complicado do que foi este ano para a gente. Tem muitas chances, mas com o treinamento que eu tenho feito, em uma ou duas competições eu faço o índice e já fico tranquila".

Rio 2016

"Minha motivação está no Nélio e na Tânia (seus treinadores). Sem dúvida nenhuma eles são motivação porque... por mim, depois de tudo o que eu passei, se eu tivesse parado em 2008, eu teria parado em grande estilo. Mas eu tenho muito gás ainda. Não é a idade que está me tirando das pistas. Não vai ser a idade que vai me tirar das pistas. Eu sempre acho que estou no auge da minha carreira. Eu sempre melhoro nos testes. Em força de rendimento, no treinamento, e não tem como parar se eu tenho como evoluir. E eu acho que eu posso saltar sete metros mais vezes. (Ir) além do que eu saltei em Pequim".

Aposentadoria

"Tem muitas direções. Mas sempre quando as pessoas chegam para falar: você tem de fazer isso, você precisa fazer aquilo, eu ainda quero é treinar. Eu ainda posso me dedicar muito ao atletismo, estando dentro das pistas, buscando mais medalhas, mais vitórias para o País. Enquanto eu puder estar fazendo isso, eu vou fazer só isso. O que for a mais eu tento levar, conciliar, mas se não der certo, se tiver me atrapalhando dentro das pistas, eu paro e continuo treinando até não aguentar mais".

Amuleto

"Eu carrego. Vou carregar durante um bom tempo. É a bolsa que eu usei em Pequim. Foi a única coisa que eu trouxe de lá, para me trazer sorte aqui. Só me traz lembranças boas, tudo de bom, sem palavras".