Yeda Crusius: volta de Delúbio é mais importante que crise da oposição

Ex-governadora gaúcha diz que PT foi oportunista

PORTO ALEGRE - Para a ex-governadora tucana do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, o PT foi oportunista durante a chamada "crise na oposição" para trazer de volta Delúbio Soares, ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores envolvido no esquema do mensalão. "Essa volta do Delúbio é muito mais importante do que aquilo qie está acontecendo com o PSDB e Democratas", disse a tucana em entrevista ao Terra.

Quando fala em crise da oposição, Yeda se refere ao surgimento do PSD, partido fundado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (ex-DEM), que enfraqueceu o Democratas e gerou uma debandada de políticos do PSDB. Para a ex-governadora, o nascimento do PSD ocorreu pela busca de um atalho extra-partidário para as eleições municipais. "Querem o seu espaço, independentemente do partido. Foi um atalho".

Sobre a chance de uma fusão do PSDB com o Democratas de Paulo Feijó e Onyx Lorenzoni, os maiores opositores de seu governo, Yeda diz que não está na hora, apesar de existir a possibilidade. Ela ataca o atual governo da República dizendo que a inflação que Dilma Rousseff (PT) enfrenta é resultado do descontrole dos gastos públicos da atual presidente e de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

Na entrevista concedida ao Terra, Yeda afirma nunca ter sido politicamente de direita, e critica a falta de oposição forte no país. No entanto, ela diz que seu partido sempre esteve firme e lidera os novos rumos da oposição brasileira, nos moldes do que tem pregado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Leia os principais trechos da entrevista.

Terra - Como a senhora avalia o que tem acontecido com a oposição brasileira com a debandada de vereadores do PSDB em São Paulo, e a saída de Kassab do DEM para fundar o PSD? Ocorre uma mudança?

Yeda - O nascimento do PSD mostra que tem gente graúda querendo o nascimento de um partido sem nenhuma razão de projeto ou ideologia, mas sim a busca de ocupar espaço já na sombra do governo federal, com presença no Congresso, governadores. O que dá nascimento a essa chamada crise do PSDB e dos Democratas é o surgimento do PSD, liderado, aparentemente, pelo prefeito da maior cidade da América do Sul, que é o Kassab.

 

Terra - A saída de Kassab do DEM teria sido em busca de espaço, segundo analistas políticos. Até que ponto, as lideranças mais antigas do PSDB, por exemplo, não teriam dado espaço para nomes em ascensão?

Yeda - Não é não dar espaço, mas manter o partido como ele é. Eu vejo diferente do que está sendo feito na análise comum e mais frequente da mídia. Não é porque, com todas as letras, o Alckmin não deu espaço. Não deram espaço para o Alckmin, mas ele conquistou o dele. E aí nasce uma reação. As pessoas que não aceitavam a presença da liderança, seja do Alckmin, seja do (senador) Aécio (Neves, ex-governador de MG e possível candidato à presidência em 2014), seja desses novos líderes que se elegeram para Câmara, Senado ou governo do Estado. Querem o seu espaço, independentemente do partido, foi um atalho. Temos que conversar entre nós, para ver como vamos enfrentar essa nova realidade da existência do PSD. Inclusive juridicamente, vai ser um imbróglio.

 

Terra - A senhora acredita que o que está acontecendo é efeito do tempo que o DEM e o PSDB estão na oposição?

Yeda - Eu não vejo muita gente querendo fazer oposição, querendo fazer política partidária com programa de futuro, que é o que dá estabilidade aos partidos. É por isso que o PSDB continua estável. O Democratas, embora muito pequeno, com a perda de Santa Catarina, se houver (a entrevista ocorreu antes do anúncio de Raimundo Colombo, que deixou o DEM para se filiar ao PSD), sofre muito mais, porque o PSDB é muito maior. E o PPS, que embora não seja um grande partido, ele tem linha, tem método, disciplina, então ele também é estável.

 

Terra - A senhora se considera uma pessoa de direita?

yeda - Eu nunca fui de direita. O meu partido é um partido de centro, e eu sempre afirmei que eu sou uma pessoa de centro. Sou contra os métodos da prática do velho comunismo russo e sou contra a direita que mira lucro. Eu sou uma social-democrata e isso jamais permite nos colocar como direita. A direita é o Partido Liberal, é o Democratas, isso é tudo muito bem definido no estatuto de um partido que se respeite.

 

Terra - O caminho para a reorganização da oposição é o proposto pelo ex-presidente Fernando Henrique de que o partido deve focar em um grupo específico?

Yeda - Esse é o começo da discussão, e ele tem toda a razão. A organização do governo central está gerando um vazio de ideias, é uma cooptação deslavada. Essa volta do Delúbio é muito mais importante do que está acontecendo com o PSDB e Democratas. A fúria com que o PT se organiza para tomar conta dos espaços de poder é impressionante. Ele não tem nada a ver com o que disse, escreveu ou fez no passado. Ele reafirma que são as pessoas que interessam a ele que devem comandar o partido, e é isso que aconteceu com a volta do Delúbio. Então, não vamos fugir, a nossa estratégia de guerra é perfeita, e foi o Fernando Henrique que com o simples artigo botou em movimento o Brasil inteiro. Ele disse assim: 'mas escuta, os partidos representam quem?'.

Então o PSDB tem que continuar representando aqueles que, primeiro, ele tirou da pobreza com toda sua atuação ao longo da existência. Em segundo lugar, bater contra a inflação, vão querer tirar isso? E o que é a inflação senão o desmando em relação ao uso do dinheiro público cometido no final do governo Lula, e agora no começo do governo Dilma. Em terceiro lugar é propor. Como é que essas classes que foram beneficiadas com o fim da inflação começam a perder outra vez e não têm perspectiva, a não ser bolsas que concedem mensalinhos? No fundo é isso.

Nós nunca fizemos o que o PT fez. Isso é muito claro, então tem que marcar bem a diferença. Não somos todos iguais, e a oposição tem que deixar claro isso, porque que nós somos diferentes, e a volta do Delúbio está dando uma pista disso.

 

Terra - A senhora acredita que existe a possibilidade real de uma fusão do PSDB com o DEM?

Yeda - Não está na hora disso, mas é na minha opinião. Que é possível, é. Mas não é somando partes diferentes. O PPS, por exemplo, já discutiu por muitas vezes a fusão com o PSDB, que é muito próximo do PPS, seja na linha de conduta ou no programa partidário. Os Democratas já são parceiros, e fusão desses três partidos - porque eu vou além dos Democratas - pelo menos com o PPS, essa discussão já é mais antiga. Isso é uma coisa que pode muito bem ser discutida, analisada, mas no mundo da política, a coerência da gente faz com que a gente siga com os três partidos, cada um disputando o poder local, que é nisso que a gente é mais forte. Discutir o poder local nas campanhas de 2012, que é o que eu vou fazer.

 

Terra - No caso de uma fusão, como ficaria sua relação com membros do DEM que foram oposicionistas em seu governo, como o deputado federal Onyx Lorenzoni e Paulo Feijó, que foi seu vice-governador?

Yeda - Olha, eles foram tremendamente amigáveis até nascer o eixo do meu governo. Eu fui candidata a prefeita com o Onyx na Frente Liberal de vice. Depois, aconteceu de inopino, como diria o meu avô. No dia da convenção, o presidente do Democratas, que é o deputado Onyx, aprontou uma divergência interna absolutamente inesperada e depois disso foi o que vocês viram. Eu não tenho problema com quase ninguém, as pessoas é que têm problema comigo.

 

Terra - O que aconteceu com Aécio, no Rio de Janeiro, poderia prejudicar uma possível candidatura à presidência da República? (Aécio foi parado em uma blitz da Lei Seca com a carteira de motorista vencida e se recusou a fazer o teste do bafômetro)

Yeda - Não, tanto é que ele já falou diversas vezes. Isso é um fato comum. Agora, quando é com uma pessoa com o porte do Aécio, com ele dirigindo, vira um case. Ótimo, tem que falar sobre isso. Eu soube que no dia seguinte ao que aconteceu com o Aécio, todo mundo foi olhar sua carteira de motorista para ver se estava vencida, porque é um papelão, um mico. Então ele pagou um mico, uma coisa pela qual ele vai ter que explicar a vida inteira, agora, isso é muito pequeno perto do Aécio, um possível candidato à presidência da República.

 

Terra - Que nome a senhora apontaria no PSDB para as eleições presidenciais?

Yeda - Nós temos o nome dele (Aécio), como sempre dissemos, e temos muitos outros nomes para trabalhar, mas vamos ter que enfrentar primeiro esta saída de pessoas do partido, com vistas à eleição municipal de 2012. A sustentação do poder de quem está nas prefeituras agora. Então, existe um jogo de poder aí que simplesmente pôs uma divisão que já era muito antiga. Então, vamos falar com todas as letras, todo o partido é composto por grupos, ou facções, conforme a palavra, ou tendências, conforme a outra palavra, e eles acharam uma oportunidade que, a partir dos desejos que eles têm, de poderes maiores, na brecha da lei, de formar um novo partido e se foram.

 

Terra - Quem a senhora acha que deve ser o nome do PSDB com maior potencial?

Yeda - Não tenho um nome.

 

Terra - Uma preferência pessoal?

Yeda - A preferência pessoal é o PSDB, que é o que fica, que continua PSDB... e não fica disputando o poder de qualquer maneira. Temos bons quadros.

 

Terra - A senhora entende que é o PSDB que deve reorganizar a oposição brasileira com a proximidade do período eleitoral?

Yeda - Ele vai continuar liderando a oposição. Porque ele não é uma pseudo-oposição de satélite como o Psol. Ele vai continuar liderando com os seus, que é o partido Democratas e o PPS.

 

Terra - Como a senhora avalia esse início de governo da presidente Dilma Rousseff?

Yeda - Eu estou muito preocupada com a inflação. Ela mostrou um descontrole na qualidade do uso do dinheiro público que foi sendo percebida aos poucos pelas pessoas. Gerou uma espécie de demanda, e que agora eu não estou vendo que ela queira eliminar. A inflação foi gerada pelo governo Lula, e pelo dela também, principalmente no final do ano, e eu não vejo plano ou método. Na minha prática, eu vejo que o governo não pode descuidar da inflação da forma como está descuidando.

O mais é o mais, ela incorporou o nome do meu programa chave de reajuste fiscal que ela disse que não ia fazer, mas o nome do programa de ajuste fiscal do governo Yeda Crusius foi: Fazer Mais com Menos, foi assim, quatro anos fazendo mais com menos, é um nome registrado. Então quando a Miriam Belchior assumiu o Planejamento disse que: "nós vamos fazer mais com menos, esse é o mantra". Tá bom, é um bom indicador, mas eu não estou vendo fazer mais com menos, não.

 

Terra - E já deu tempo para fazer alguma coisa?

Yeda - Olha, tem que ter vontade.