Reunião avalia se resgate de corpos do AF 447 deve continuar

PARIS - Uma reunião entre a polícia, a Justiça e o BEA, o órgão francês responsável pela investigação do acidente com o voo AF 447, vai avaliar na segunda-feira a continuidade da operação de resgate dos corpos das vítimas encontrados junto aos destroços do Airbus A330, a quase 4 km de profundidade no Oceano Atlântico. O encontro, que será realizado em Paris, quer "validar a possibilidade de continuar içando os corpos", como disse ao Terra a coordenação de imprensa da Polícia Militar francesa nesta sexta-feira.

A polícia não informou se as operações de tentativa de resgate de vítimas continuam nesta sexta-feira e durante o fim de semana. Duas equipes de especialistas encontram-se a bordo do navio Ile de Seine, de onde é coordenada a operação marítima por meio de robôs Remora 6000: uma tem a missão de recolher peças e outras partes da carcaça do avião que possam ser úteis para as investigações, e a segunda é encarregada de tentar retirar os corpos.

O corpo que foi resgatado na quinta-feira permanecerá no navio até que os demais também sejam, se possível, trazidos à superfície. Os restos mortais estão em um frigorífico. O objetivo é levar a Paris todos os corpos que forem recolhidos na operação.

A polícia retirou amostras do corpo resgatado, que serão enviadas à França junto com as duas caixas-pretas do Airbus, recuperadas no início da semana. Inicialmente, as peças e a amostra serão levadas a Cayenne, na Guiana Francesa, de onde partirão de avião rumo a Paris. A expectativa é que os especialistas desembarquem na França até a quarta-feira. De acordo com a polícia francesa, um representante brasileiro vai acompanhar o procedimento e, na capital francesa, participará tanto do trabalho de leitura das caixas-pretas quanto da identificação da vítima por exame de DNA.

Ainda segundo a polícia, os corpos que estão afivelados aos assentos de avião são os mais fáceis de serem resgatados, já que os braços do robô conseguem segurar o banco com mais firmeza. Há vítimas, entretanto, que estão separadas dos assentos. Procurado, o BEA declarou que não comentará o resgate das vítimas e que esta questão é de responsabilidade da polícia e da Justiça francesas.

 

Parentes das vítimas

Na quinta-feira, Alain Jacubowicz, advogado da Associação Ajuda Mútua e Solidariedade, que representa familiares de vítimas francesas da catástrofe, disse que os parentes não foram consultados sobre a decisão judicial de tentar trazer os corpos à superfície. A operação é extremamente delicada, uma vez que os corpos - em estado de decomposição após dois anos da catástrofe - podem se deteriorar no trajeto de 4 mil metros entre o fundo do mar e o navio. A manipulação dos corpos através de um robô também pode causar danos.

O assunto é alvo de discórdia entre os parentes de vítimas: enquanto alguns preferem que os corpos fiquem onde estão, outros fazem questão de tentar sepultar seus entes. "Não é papel da associação questionar esta decisão da Justiça. Como muitos familiares desejam o resgate, ele tinha de ser feito", comentou o advogado.

Robert Soulas, pai de uma jovem e sogro do marido dela, ambos mortos no acidente, era contrário à tentativa de resgate - mas compreende que outras famílias pensem diferente. "Para mim, está sendo extremamente doloroso. Eu gostaria que eles repousassem em paz, que os deixássemos em paz onde estão", reconheceu. "Mas era impossível consultar e agradar a todos. As opiniões são muito diversas e era preciso tomar uma decisão, e acho que a maioria desejava o resgate."

Embora concorde com a decisão de se tentar trazer os corpos à superfície, Soulas critica a falta de amparo às famílias neste momento difícil, por parte da Air France, da Airbus ou do governo francês. Segundo ele, há apenas um psicólogo à disposição das famílias e são os próprios familiares que precisam procurá-lo, se sentem necessidade. "Há famílias mais reservadas que estão vivendo um verdadeiro inferno nestes dias, e ninguém faz nada para confortá-las", queixou-se.

Por sua vez, os familiares brasileiros "exigem" que o resgate seja levado adiante. Em comunicado divulgado à imprensa nesta sexta-feira, o diretor-executivo e o presidente da associação, Maarten Van Sluys e Nelson Faria Marinho, destacam o aspecto legal da recuperação dos corpos. "As análises forenses poderão estabelecer a causa mortis, uma das premissas que norteiam as ações criminais e civis", afirmam. Eles ainda argumentam que a ausência de corpo dificulta a obtenção de atestado de óbito, problema que vem sido enfrentado por algumas famílias, conforme a associação.

 

O acidente

O avião da Air France saiu do Rio de Janeiro com 228 pessoas a bordo no dia 31 de maio de 2009, às 19h (horário de Brasília), e deveria chegar ao aeroporto Roissy - Charles de Gaulle de Paris no dia 1º às 11h10 locais (6h10 de Brasília). Às 22h33 (horário de Brasília) o voo fez o último contato via rádio com o Centro de Controle de Área Atlântico (Cindacta III). O comandante informou que, às 23h20, ingressaria no espaço aéreo de Dakar, no Senegal. Às 22h48 (horário de Brasília) a aeronave saiu da cobertura radar do Cindacta.

A Air France informou que o Airbus entrou em uma zona de tempestade às 2h GMT (23h de Brasília) e enviou uma mensagem automática de falha no circuito elétrico às 2h14 GMT (23h14 de Brasília). Depois disso, não houve mais qualquer tipo de contato. Os fragmentos dos destroços foram encontrados cerca de uma semana depois no meio do oceano pelas equipes de busca brasileiras. No entanto, as caixas-pretas foram localizadas quase dois anos depois, em 1º de maio de 2011.

Dados preliminares das investigações feitas pelas autoridades francesas revelaram que falhas dos sensores de velocidade da aeronave, conhecidos como sondas Pitot, parecem ter fornecido leituras inconsistentes e podem ter interrompido outros sistemas do avião. As sondas permitem ao piloto controlar a velocidade da aeronave, um elemento crucial para o equilíbrio do voo. Mas investigadores deixaram claro que esse seria apenas um elemento entre outros envolvidos na tragédia. Em julho de 2009, a fabricante anunciou que recomendou às companhias aéreas que trocassem pelo menos dois dos três sensores - até então feitos pela francesa Thales - por equipamentos fabricados pela americana Goodrich. Na época da troca, a Thales não quis se manifestar.