Erros em projeto causaram queda de prédio no Pará, diz laudo

Um laudo do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves (CPC) divulgado nesta sexta-feira afirmou que uma série de erros de engenharia causaram a queda de um prédio de 32 andares em construção em Belém (PA) no dia 29 de janeiro. Os erros estavam presentes tanto no projeto estrutural como na concepção do modelo matemático, além de irregularidades no dimensionamento e no detalhamento da estrutura.

O perito Dorival Pinheiro, que coordenou as ações da perícia, disse que, por conta do erro estrutural no projeto do imóvel que deveria ter 34 andares, dois pilares centrais que tinham ferros com diâmetro menor do que a necessária não resistiram. A chuva e o vento não influenciaram para que a tragédia acontecesse. "Pelo que constatamos, o prédio caiu seis minutos após o vento forte. O problema foi estrutural e matemático. Os elementos não estavam integrados".

O perito Silvio Conceição, que também trabalhou durante os 45 dias no local da tragédia analisando os destroços do prédio, afirmou que o engenheiro calculista do edifício cometeu um erro matemático ao fazer a projeção da obra e que o prédio não poderia ter 34 andares. "Quando ele estava fazendo o projeto, considerou pavimento por pavimento, não se importando com o número de andares. O correto seria considerar o prédio como um todo", afirmou.

Outro problema apontado pelo laudo do CPC está relacionado à questão administrativa. Foi constatado que a empresa não fez a revisão do projeto estrutural do prédio antes de iniciar as obras, o que desrespeita diretrizes da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). "Ao finalizar o projeto, a construtora deve repassá-lo para outro profissional, que deverá fazer a revisão do projeto. Isto não foi feito", afirmou o perito.

Investigações
Após a divulgação do laudo para a imprensa, o material foi entregue ao delegado Rogério Moraes, da Divisão de Investigações e Operações Especiais (Dioe), que afirmou que o resultado do laudo irá resultar em indiciamentos. O primeiro a ser ouvido no inquérito será o engenheiro civil responsável pelo cálculo estrutural.

"Vamos trabalhar com a possibilidade de homicídio culposo, já que três pessoas morreram em decorrência de um erro", disse o delegado. O depoimento está marcado para a próxima quarta-feira. Além dele, outras pessoas devem prestar depoimento, como o dono da construtora. A polícia tem até o dia 29 deste mês para concluir o inquérito.

Causas
No total, segundo a Agência de Notícia do Estado, houve quatro causas para a tragédia.

1 - Falha na concepção estrutural do prédio: dois pilares centrais do edifício tinham ferros com espessura menor do que a necessária. Os pilares ficavam próximos ao fosso do elevador, no térreo;
2 - Falha no dimensionamento e detalhamento estrutural: os ferros que passavam dentro dos pilares deveriam ter diâmetro de pelo menos 5 mm, mas tinham 4,2. Isso comprometeu ainda mais a resistência;
3 - Erro de concepção no modelo matemático: o engenheiro calculista fez o projeto considerando pavimento por pavimento do prédio. O correto seria considerar o prédio como um todo;
4 - Normas administrativas: a altura do prédio exigia que a construtora tivesse um conselho consultivo para avaliar o projeto, o que não foi feito.

À época do acontecido, a empresa afirmou em nota que o acidente ocorrido dia 29 de janeiro "foi um fato isolado" e que a população devia se tranquilizar quanto à segurança e à qualidade dos imóveis da empresa.

A reportagem entrou em contato com a Real Engenharia, mas ainda não obteve retorno.