Retratos falados: trauma faz vítimas lembrarem detalhes do criminoso, diz perito

 

Ferramenta usada para nortear investigações e diminuir o leque de opções para capturar um suspeito, os retratos falados são as peças chaves para desvendar os casos da supervisora de vendas Vanessa Vasconcelos Duarte, 25 anos, encontrada morta em Vargem Grande Paulista, na Grande São Paulo, e do ex-árbitro de futebol Oscar Roberto Godói, que foi baleado durante uma tentativa de assalto também em São Paulo. 

Se construir um retrato falado parece uma tarefa difícil, imagine descrever detalhes da fisionomia da pessoa que lhe causou algum mal, muitas vezes tendo havido contato por poucos segundos. De acordo com o policial perito em arte forense Alan Zambelli, do Departamento de Polícia Judiciária da Macro São Paulo (Demacro), o quesito mais importante para o desenho é o formato e triângulo do rosto: olho, nariz e boca. "Se a pessoa não for testemunha ocular, se viu de perto o criminoso, ela não esquece. O que a possibilita ter na memória as características é o fator trauma. Tendo o trauma, ela não esquece".

Segundo Zambelli, um relaxamento baseado em hipnose faz a pessoa lembrar do que ela não queria. O perito tenta propiciar um ambiente acolhedor e diferente das delegacias comuns. Em uma sala que inspira tranquilidade, com som ambiente e decoração propícia, com café, balas e chocolates à disposição, a vítima, ou testemunha, começa a "brincar" com a caricatura. No Demacro, a imagem já é feita de maneira digital. Segundo o policial, há 10 anos já se costuma fazer dessa maneira, e há dois, contam com a opção de colorir o retrato.

O titular do setor de homicídios da Seccional de Carapicuíba, Zacarias Tadros, responsável pelas investigações da morte de Vanessa, relata que uma ligação via disque-denúncia, recebida no dia 15 de fevereiro, apontava um suspeito semelhante ao retrato falado que a polícia divulgara. "Isso nos propiciou consultar uma testemunha que indicou o Edson como executor. Através da ligação, nós fizemos uma pesquisa, e o identificamos", disse. O delegado se refere a Edson Bezerra Gouveia, o primeiro suspeito do caso a ter o retrato falado divulgado. Ele é procurado pela polícia e teve a prisão temporária decretada na última sexta-feira.

Na situação de Godói, dois retratos falados do assaltante foram divulgados. Um com base no olhar de uma testemunha, e o outro pela observação do ex-árbitro. A polícia recebeu algumas ligações que vieram do disque denúncia por causa da divulgação dos desenhos que estão sendo apuradas. "O melhor no retrato falado é jogar na mídia para colher frutos", diz Marco Aurélio Floridi Batista, delegado do 23º DP, que apura o caso. 

Segundo o policial, as características dos dois desenhos se assemelham. "As imagens batem, mas não são idênticas. O contato com a testemunha foi de 12 metros de distância. Os dois citam o tom da pele, as entradas (sinais de calvície incipiente). Como teve contato físico, Godói pôde perceber marcas no rosto do assaltante. Ele descreve o rosto bexiguento, pele bexiguenta, como marcada por espinha. E isso já ajuda na eliminação de possíveis suspeitos", exemplifica o titular do 23º DP.

Retrato digital é retirado de banco de dados Um programa de computador oferece mais de mil fotos, tipos de rosto, em sua maioria coletadas em presídios, e fiéis aos padrões do brasileiro. A partir desses rostos como modelo, são inseridos olhos, boca, nariz, todos provenientes do banco de dados do programa. Leva de 40 minutos a uma hora para ficar pronto. "Hoje, o retrato se assemelha de 70% a 80% do rosto da pessoa", diz. 

Além do Demacro, o recurso é realizado no Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic) e Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP). O setor de arte forense conta principalmente com retratos falados e manipulação de imagem em câmeras de segurança. "O retrato falado ajuda a identificar (o suspeito), mas não aponta o culpado. É preciso ter cuidado, pois entregar o retrato falado, não é dar porte de arma para ninguém", afirma.

Retrato deve ser feito por policial para evitar descrição falsa ou fantasiosa

Zambelli enfatiza que para dar credibilidade ao trabalho, o retrato deve ser feito por um policial, e não apenas por um profissional que desenha ou opera imagens. "O profissional precisa interpretar certas coisas, entender se aquilo que estão lhe falando é real". O perito relata um caso de descrição fantasiosa que vivenciou. "Uma vez fiz o retrato falado de um suspeito para uma vítima de 9 anos de idade. Ela era do município de Caucaia do Alto e foi estuprada por um caminhoneiro quando voltava do colégio. Ela inventou o rosto de um ator de uma novela da época, o Marcelo Novaes. Na cabecinha dela, fantasiar era melhor do que a vergonha de descrever a pessoa que lhe violentou", disse. 

O policial ressalta que o trabalho exige muito tato para tratar dessas questões psicológicas. Algumas testemunhas também tentam distorcer e confundir o retrato para proteger o suspeito. Outras vítimas, muito desesperadas, exageram na descrição. "Estava criando uma cabeça, em um dos casos, e a senhora que estava descrevendo falava para eu aumentá-la cada vez mais. O bandido parecia tão terrível para ela, que a vítima o enxergava de maneira diferente".

É comum aparecer nome de artistas, de famosos, para tentar classificar um indivíduo. Muitas testemunhas descrevendo a mesma pessoa também podem prejudicar o trabalho. "Eu prefiro trabalhar com duas pessoas no máximo. Elas falam separadamente e eu monto um retrato baseado nas descrições". Os programas têm opção de cabelos diversificados, acessórios como óculos, bonés etc. Por mais modernos que estejam os retratos falados, Zambelli lembra que o botox e outras técnicas estéticas estão aí, e podem atrapalhar a foto.