Projeto original impede que prédio do Belas Artes vire loja em São Paulo

Um detalhe no projeto original do Belas Artes pode afastar definitivamente a possibilidade de que o imóvel no bairro da Consolação, em São Paulo, seja utilizado com outra finalidade que não o cinema. Quem explica é Sócrates Magno Torres, da Via Cultural - Instituto de pesquisa e Ação pela Cultura, entidade que solicitou a abertura do processo de tombamento junto ao Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).

De acordo com ele, pesquisas mostraram que o prédio foi concebido com o intuito de abrigar salas de exibição.

- Vamos seguir a linha de pertinência do tombamento do imóvel pelo valor real de seu projeto arquitetônico original. Será a principal linha adotada no processo. Isso é muito bom, pois o fato de o projeto original ser de um cinema garante o fim de finalidade e afasta a ideia de que pode ser loja de departamento ou de outro segmento.

Torres minimizou a declaração do cineasta Fernando Meirelles, da O2 Filmes (uma das responsáveis pela administração do Belas Artes), divulgada nesta segunda-feira (24) pelo blog do crítico Luiz Carlos Merten. Meirelles informou que o Belas Artes iria fechar, pois o advogado do proprietário do imóvel havia pedido o prédio de volta no final de fevereiro, quando termina o contrato.

- Não podemos levar em consideração no processo de tombamento resoluções do âmbito empresarial. A abertura do processo não visava a manutenção deste ou aquele empresário explorando o espaço. O importante é que, mesmo que não haja acordo entre os atuais locadores e locatários, o cinema seja a única finalidade do prédio. Nenhuma cadeira pode ser tirada do lugar. Não acredito que o fechamento definitivo seja bom para ninguém, inclusive para o Flávio Maluf (proprietário). Talvez até um pedido de desapropriação do imóvel pela prefeitura pode ser uma saída para a manutenção deste espaço.

Protestos

No último fim de semana, internautas articularam, via Twitter, mais uma manifestação em prol do Belas Artes. Segundo informações postadas no perfil @belasartesSalve, identificado como "grupo de pessoas que pensam além do bolso", um protesto está programado para a tarde desta segunda-feira, na esquina da rua da Consolação com a Avenida Paulista. "Mostre sua indignação contra o fechamento do Cine Belas Artes!", convocava o perfil.

O primeiro grande golpe sofrido pelo cinema foi em março de 2010, com o corte do patrocínio do banco HSBC. Uma campanha, entretanto, garantiu a sobrevida do Belas Artes, angariando novos apoiadores. A possibilidade de encerramento das atividades voltou a ser aventada após o último dia 30 de dezembro, quando os responsáveis pelo estabelecimento foram informados de que a renovação do aluguel não iria ocorrer mais.

O anúncio desencadeou manifestações contrárias, sobretudo, virtuais. Criado no dia 6 de janeiro, o abaixo-assinado pelo não fechamento do Belas Artes tinha já conta com quase 15 mil assinaturas e mais de 54 mil visualizações. Já a página criada, com a mesma finalidade, na rede social Facebook acumula mais de 50 mil membros.

Considerado um dos mais tradicionais cinemas de São Paulo, o Belas Artes começou a funcionar na década de 1940. O prédio foi projetado pelo italiano Giancarlo Palanti, que foi sócio da Lina Bo Bardi, destaca Torres.

- O fato de os arquitetos originais serem de origem italiana nos coloca a questão das resultante da influência dos imigrantes aqui, em São Paulo. Sendo 2011 o ano da Itália no Brasil, podemos também seguir esta tendência de resgates destes espaços. O DHP (Departamento do Patrimônio Histórico) está trabalhando dentro desta linha. Temos informações constantemente.