Primo de Bruno conta que ouviu menor falar: 'Levamos Eliza para morrer'

BELO HORIZONTE - Primo do goleiro Bruno, Sérgio Rosa Sales, o Camelo, começou a prestar depoimento às 9h30 desta quarta-feira, no Fórum de Contagem, em Minas Gerais. Ele voltou a alegar que foi coagido pela polícia a revelar, em depoimento no dia 7 de julho, a estadia de Eliza no sítio do goleiro, no município mineiro de Esmeraldas, entre os dias 6 e 10 de junho. Dos nove réus, ele é o quinto a ser ouvido.

A juíza Marixa Fabiane determinou que uma funcionária do fórum lesse o depoimento de Sérgio dado à polícia na época das investigações. Para os delegados que investigaram o caso, Sérgio afirmou que viu Eliza com um ferimento profundo na cabeça. "A cabeça de Eliza tinha uma brecha, um buraco muito grande. Briguei com Macarrão porque queria ir ao banheiro e ele impediu. Fui ao Bruno e reclamei, e o Bruno respondeu: 'Ele tem os motivos dele'", relatou Sérgio à polícia. Sérgio disse para a juíza que confirmava o depoimento apenas parcialmente, diferente de semana passada, quando negou tudo o que havia dito à polícia, alegando ter sofrido tortura dos delegados para participar da reconstituição do crime. Também na semana passada, Sérgio afirmou que policiais o forçaram a trocar de advogado.

Dentre os detalhes que mudaram, Sérgio falou que o menor teria lhe dito que Eliza "já era" não em Esmeraldas, mas no Rio de Janeiro, onde estavam para jogar uma partida de futebol: "Quer saber a verdade? Nós não levamos Eliza para apartamento nenhum, nós levamos Eliza para morrer", teria dito o menor para ele, Sérgio.

A expectativa é a de que o depoimento dure mais de 10 horas. Somente ao final a juíza Marixa Fabiane Lopes, do Tribunal do Júri de Contagem, vai decidir se chama algum dos outros réus para ser ouvido hoje. O mais provável, no entanto, é que Fernanda, amante do goleiro, Bola, Bruno e Macarrão sejam ouvidos na quinta e na sexta-feira.

O caso

Eliza desapareceu no dia 4 de junho, quando teria saído do Rio de Janeiro para Minas Gerais a convite de Bruno. No ano passado, a estudante paranaense já havia procurado a polícia para dizer que estava grávida do goleiro e que ele a agrediu para que ela tomasse remédios abortivos. Após o nascimento da criança, Eliza acionou a Justiça para pedir o reconhecimento da paternidade de Bruno.

No dia 24 de junho, a polícia recebeu denúncias anônimas dizendo que Eliza havia sido espancada por Bruno e dois amigos dele até a morte no sítio de propriedade do jogador, localizado em Esmeraldas, na Grande Belo Horizonte. Na noite do dia 25 de junho, a polícia foi ao local e recebeu a informação de que o bebê apontado como filho do atleta, de 4 meses, estava lá. A atual mulher do goleiro, Dayanne Rodrigues do Carmo Souza, negou a presença da criança na propriedade. No entanto, durante depoimento, um dos amigos de Bruno afirmou que havia entregado o menino na casa de uma adolescente no bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves, onde foi encontrado.

Enquanto a polícia fazia buscas ao corpo de Eliza seguindo denúncias anônimas, em entrevista a uma rádio no dia 6 de julho, um motorista de ônibus disse que seu sobrinho participou do crime e contou em detalhes como Eliza foi assassinada. O menor citado pelo motorista foi apreendido na casa de Bruno no Rio. Ele é primo do goleiro e, em dois depoimentos, admitiu participação no crime. Segundo a polícia, o jovem de 17 anos relatou que a ex-amante de Bruno foi levada do Rio para Minas, mantida em cativeiro e executada pelo ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola ou Neném, que a estrangulou e esquartejou seu corpo. Ainda segundo o relato, o ex-policial jogou os restos mortais para seus cães.

No dia seguinte, a mulher de Bruno foi presa. Após serem considerados foragidos, o goleiro e seu amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, acusado de participar do crime, se entregaram à polícia. Pouco depois, Flávio Caetano de Araújo, Wemerson Marques de Souza, o Coxinha Elenilson Vitor da Silva e Sérgio Rosa Sales, outro primo de Bruno, também foram presos por envolvimento no crime. Todos negam participação e se recusaram a prestar depoimento à polícia, decidindo falar apenas em juízo.

No dia 30 de julho, a Polícia de Minas Gerais indiciou todos pelo sequestro e morte de Eliza, sendo que Bruno responderá como mandante e executor do crime. Além dos oito que foram presos inicialmente, a investigação apontou a participação da atual amante do goleiro, Fernanda Gomes Castro, que também foi indiciada e detida. O Ministério Público concordou com o relatório policial e ofereceu denúncia à Justiça, que aceitou e tornou réus todos os envolvidos. O jovem de 17 anos, embora tenha negado em depoimentos posteriores ter visto a morte de Eliza, foi condenado no dia 9 de agosto pela participação no crime e cumprirá medida socioeducativa de internação por prazo indeterminado.