Especialista na obra de Gilberto Freyre, inglês fala do escritor

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

PARATY, RJ - Grande homenageado da Flip, Gilberto Freyre ainda não é reconhecido como merece fora do Brasil. Pelo menos, esta é a conclusão do historiador inglês Peter Burke, coautor de Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre (escrito com sua mulher, a brasileira e também historiadora Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke), livro que contextualiza as ideias do antropólogo pernambucano, servindo quase de cartão de visita de sua obra para o público estrangeiro. Especialista em Idade Moderna europeia, o conceituado historiador será um dos debatedores na mesa Gilberto Freyre e o século 21, domingo, às 11h45, marcando o último dia da Festa Literária Internacional de Paraty. Em entrevista ao Caderno B, Burke frisa que nunca existiu um intelectual como Freyre na Europa e defende a atualidade de seu pensamento.

Como o mundo acadêmico europeu analisa hoje a obra de Gilberto Freyre?

Sinto dizer isso, mas os acadêmicos europeus simplesmente não conhecem sua obra. Na Inglaterra, quando falava do projeto do meu livro, as pessoas diziam: Ah, Freyre, claro, o educador... . Na verdade, estavam confundindo com Paulo Freire, que é muito mais conhecido. Tanto na França quanto na Itália também não sabem nada sobre Gilberto. A grande maioria dos seus livros está sem edições novas. Sinto vergonha por isso, mas acredito que, nos últimos anos, não foram vendidas nem 2 mil cópias de seus livros. Quando Casa-grande & senzala saiu, Freyre teve um certo auge, com artigos publicados na França. Mas desde então entrou num lento declínio.

Foi por isso que escreveu o livro tentando apresentar Freyre para os ingleses?

Sim, é uma das principais razões. Gilberto precisa ser mais bem entendido. Suas ideias continuam relevantes.

Freyre antecipou muitas questões. Quais delas têm mais pertinência hoje?

O hibridismo cultural, que só começou a ser analisado por gerações mais recentes. Mas eu diria que a questão mais extraordinária foi a sua consciência ecológica. Era incrível a maneira como ele se preocupou com as questões do meio ambiente nos anos 30.

A mistura de culturas e raças é um dos assuntos mais pertinentes na Europa hoje, confrontados principalmente por países como Inglaterra e França. Até que ponto o conceito de democracia racial, defendido por Freyre, pode ser uma referência para estes centros?

É interessante imaginar o que Gilberto pensaria do multiculturalismo atual. Precisamos antes ver em que contexto surgiram as suas ideias, sua interpretação de culturas. O contexto, claro, era o Brasil colonial. Mas nos anos 30, quando ele escreveu Casa-grande, a questão já era muito mais complexa, com a vinda de japoneses, alemães, italianos... Fiquei decepcionado com Ordem e progresso, que falava quase nada sobre a contribuição dessas culturas à identidade brasileira. A impressão que se tinha é que ele via o Brasil como um clube de três raças, negra, índia e branca. Por outro lado, países europeus também exaltaram a mistura de culturas. A Inglaterra é uma grande mistura de tribos celtas. É irônico pensar que até a clássica ideia de mistura cultural brasileira possa ter inspiração estrangeira.

A ideia de miscigenação de Freyre seria, portanto, relativa?

Sim, sem dúvida.

Mas não é indiscutível que o português teve muito mais tendência à mistura no Brasil do que os britânicos em suas colônias?

Acredito que, neste sentido, Gilberto tenha exagerado as diferenças entre o império britânico e o português. Sua ideia de colonialismo britânico se limitava à época de Kipling. Talvez porque adorasse Kipling. Mas o fato é que, antes disso, os ingleses tiveram um hábito de interpenetrar em países como a Índia, sexual e culturalmente. A mistura com indígenas era comum.

O senhor esteve com Freyre em duas oportunidades. Qual foi sua impressão?

A primeira foi em uma palestra em Assex, em 1965, quando ele foi receber um grau honorário. Em um inglês muito bom ele louvou a miscigenação. Fiquei surpreso. Para mim era