Amparo em casos de agressão física à mulher é negligenciado

Ana Paula Siqueira , Jornal do Brasil

BRASÍLIA - A Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) divulgou, há poucos dias, balanço com o número de ligações recebidas pela Central de Atendimento à Mulher entre janeiro e junho deste ano. O aumento em relação ao mesmo período do ano passado foi de 112%, num total de 343.063 atendimentos. A maior parte das ligações continua sendo de mulheres que foram agredidas por seus companheiros.

Um dos aspectos que chamou a atenção de especialistas, no entanto, foi a quantidade de telefonemas de mulheres relatando sofrer ameaças. A violência psicológica foi evidenciada em quase 9 mil telefonemas, ficando atrás apenas dos relatos de agressão corporal, que chegam perto de 20 mil. Aproximadamente 50% das mulheres afirmaram correr risco de vida.

Para a secretária nacional de enfrentamento à violência contra mulher da SPM, Aparecida Gonçalves, as denúncias de ameaças mostram que elas correm perigo iminente. Entretanto, é comum, na avaliação dela, que as autoridades se neguem a dar amparo à mulher em casos em que não houve agressão física.

Há descrédito na fala da mulher alerta Aparecida. E essa atitude pode levar a mulher à morte. A voz de uma mulher que reporta estar sendo ameaçada tem de ter credibilidade. Só a vítima tem a real dimensão do risco que corre.

Registro é dificultado

Ela conta que ainda são muito comuns casos de policiais que dificultam o registro de denúncias de violência doméstica. Além de todo o terror psicológico vivido por essas mulheres, há grande risco de que as ameaças se tornem realidade. Para a secretária, o agressor, geralmente, não é calculista. E ele pode resolver colocar suas ameaças em prática a qualquer momento.

A coordenadora do Núcleo de Estudos da Mulher da UnB, Lourdes Bandeira, diz que quando se trata da voz feminina, há uma série de preconceitos . Isto, segundo Lourdes, faz com que as mulheres deixem de denunciar quando são ameaçadas ou agredidas, permitindo que os agressores continuem livres para novos crimes.

A socióloga também critica o despreparo não apenas dos órgãos de segurança pública, mas também do sistema de saúde com relação ao trato da mulher vítima de violência doméstica.

Isso a vulnerabiliza. Ela vai ter vergonha. Ninguém gosta de ser desacreditado afirma.

Justamente por isso, o número de ligações à Central relatando ameaças é tão significativo. Pois as mulheres não precisam se identificar para receber orientações.