Aécio Neves: em campanha, mas tranquilo

Mauro Santayana, Jornal do Brasil

NOVA LIMA - Aécio Neves tem pouco tempo para transferir ao professor Antonio Anastasia seu prestígio popular no estado, mas não se perturba. Uma campanha, sobretudo em Minas, começa com alguma indiferença, vai crescendo e só se define nas duas últimas semanas do pleito. As pesquisas refletem essa variação e são alteradas, de acordo com a circunstância. Primeiro, o mineiro assunta, como se cheirasse o vento. Depois, vai examinando a paisagem, com calma e perspicácia. Raramente expõe, com clareza, sua opinião. E, quando é muito enfático, convém desconfiar. O voto, em Minas, talvez mais do que em outras regiões, é assunto íntimo. Em questões políticas, o mineiro é mais de perguntar e de fingir que ouve, quando já tem seu voto definido. Quando está em dúvida, costuma fazer o advogado do diabo, e fazer restrições ao preferido, talvez mesmo para assegurar-se da escolha.

Estou tranquilo, mas temos que trabalhar muito nestas semanas. Tenho o maior respeito pelos adversários, mas sei que os mineiros não gostam que lhes imponham, de fora, as decisões que se referem à sua vida política interna. Todos sabem que a aliança adversária se formou por determinação do governo federal. Mesmo entendendo a disciplina partidária dos que a aceitaram, os militantes de base não se entusiasmam em cumprir as ordens de cima. Na hora do voto, que é a da mais completa liberdade, os eleitores agem de acordo com sua inviolável consciência. Uma de nossas vantagens é o apoio dos prefeitos. Eles, mais do que ninguém, sabem dos nossos esforços em promover a igualdade entre as regiões, em distribuir com equidade os recursos públicos.

O interesse de cada um

Quarta-feira, Aécio recebeu, em companhia de seu candidato à sucessão, e de Itamar, companheiro na chapa dupla ao Senado, o apoio dos motoristas de táxi de Belo Horizonte. Seu discurso foi habilmente municipal. Lembrou a parceria entre o governo do estado e a prefeitura, nas obras de modernização urbana da capital e seu reflexo na vida pessoal dos taxistas. Citou as leis estaduais que os beneficiam e concluiu com o sumo de seu argumento: a boa gestão administrativa e o desenvolvimento da economia são do interesse de cada um, de suas famílias, do futuro dos filhos, da sociedade inteira. Enfim, o cumprimento do projeto de Minas, em andamento, não pode sofrer interrupções.

Antes, a nossa conversa visitara paisagens mais amplas, além do mutilado horizonte da Serra do Curral e das colinas ao norte da cidade. Aécio vai para o Senado com o programa que trazia, como pré-candidato à Presidência da República, frustrado, como todos sabem, pela insistência dos dirigentes paulistas de seu partido em disputar a Presidência com o nome do governador José Serra. O projeto político nacional de Aécio remonta às preocupações dos velhos republicanos, que é o de dar sólidas estruturas jurídicas ao estado, com a nítida separação dos poderes. Estruturas que possam durar, e não sejam, como é da triste tradição nacional, sujeitas a remendos ocasionais, conforme os interesses corporativos. Daí a necessidade das reformas políticas, sempre vistas como urgentes, e sempre postergadas pelo oportunismo eleitoral.

A reconstrução federalista

Como seus avós e seu pai, homens públicos de tempo integral, Aécio é federalista convencido. Ele deseja, com o apoio de Itamar, que, como bom mineiro, pensa da mesma forma, recuperar, para a Câmara Alta, o papel que lhe cabe, de representação clara, firme, intransigente, dos estados federados. O papel do Senado não pode continuar sendo, salvo em episódios ocasionais, o de simples câmara revisora, espécie de casa moderadora e tutelar da outra parcela do Congresso. O principal papel do Senado é o de conter a ânsia centralizadora dos tecnocratas da União e garantir a distribuição do poder a todas as regiões do país, de forma equilibrada.

A grande inteligência do sistema norte-americano lembra Aécio foi o de dar ao Senado esse duplo papel, o de legislar com bom-senso, e o de garantir a estrutura federativa. Há, aqui no Brasil, quem não perceba essa sábia preocupação dos fundadores dos Estados Unidos, a de proteger as regiões de menor população e, em razão disso, de menor peso eleitoral, contra as tentativas hegemônicas dos estados mais poderosos. Essa equidade de poder político dos estados se reflete nas eleições presidenciais. Os grandes e os pequenos estados se revezam na oportunidade de ocupar a Casa Branca. No Brasil, só tivemos, na verdade, uma exceção e que, infelizmente, não foi a melhor, a da eleição popular de 1989. Fora disso, só o Sul e o Sudeste têm elegido o presidente da República. A paridade da representação nos Estados Unidos, dois senadores por unidade federativa e, em nosso caso, três tem como objetivo garantir a igualdade entre os estados que fazem o todo nacional. A grande missão do Senado é a de conter a tendência do poder central de se ampliar até romper os limites da estabilidade política e provocar as graves crises institucionais. O Senado é o melhor instrumento para desencorajar o arbítrio e reduzir a centralização, desnecessária, abusiva mesmo, dos recursos públicos nos cofres da União.

Outra preocupação de Aécio é com a reforma política. Ele se angustia com a necessidade, não só na disputa eleitoral mas, sobretudo, no ato de governar, de negociações penosas com partidos de pouca legitimidade. Essa, diz ele, tem sido a velha aflição do Poder Executivo: a da negociação pontual, muitas vezes com cada parlamentar em separado, a fim de se conseguir a aprovação dos projetos de governo. Isso causa desgaste moral aos governantes, obrigados a concessões constrangedoras.

O entendimento pelo alto

Os homens públicos responsáveis sabem entender-se quanto à necessidade da preservação da República, da continuidade do desenvolvimento econômico, da realização da justiça social, enfim, da defesa dos interesses permanentes do povo brasileiro. Esses homens podem ser mais conservadores ou mais liberais, no clássico vocabulário político, mais à esquerda ou mais à direita, mas se unem na mesma consciência de que o poder é cumprimento de alto dever e terá que ser exercido com prudência e modéstia. Aprendi, em Minas quase sempre com os sábios homens públicos do interior que em política há adversários, que podem pensar de maneira diferente da que pensamos, sobre questões adjetivas, mas não há inimigos. Quando a gente encontra inimigos intransigentes em política, é quase certo que a inimizade é anterior e alheia à atividade partidária, e para ela foi indevidamente transferida. Por isso mesmo, acho que entre o meu partido e o Partido dos Trabalhadores há menos divergências do que convergências. O que dificulta o nosso entendimento são interesses laterais, sempre menores. É claro que temos divergências, mas poderemos avançar mais naquilo que temos em comum.

O revezamento no poder

Aécio faz questão de afirmar que estão longe de seu ideário político os partidos únicos. A alternância no poder revela a força dos sistemas democráticos. O México, depois de uma revolução heroica, embrenhou-se em um partido único, que salvo poucos momentos de exceção manteve um dos sistemas oligárquicos mais cruéis da América Latina, com a miséria endêmica, a criminalidade alta, tudo isso sob o manto de uma democracia formal. Mais uma vez ele recorre aos Estados Unidos. Foi difícil, como lembrou, ao presidente Barack Obama obter do Congresso a reforma do sistema de saúde e do arcabouço financeiro, mudanças que tocam no âmago do capitalismo norte-americano. Mas a maioria parlamentar entendeu a sua responsabilidade histórica e os interesses permanentes do país, e respaldou a iniciativa do Poder Executivo.

Momento e oportunidade

O ex-governador de Minas reconhece o bom momento nacional, e recomenda a continuidade dos projetos nacionais de desenvolvimento. Ele acha que temos de romper o velho costume político de destruição do trabalho dos antecessores, como se fosse da natureza do poder a maldição do mandato anterior e a criação de programas administrativos antagônicos, como marca pessoal de grandeza.

Em Minas, felizmente, não pensamos que governar é destruir, é amaldiçoar o passado. Juscelino, no governo de Minas, aproveitou-se do Plano de Recuperação do governo Milton Campos, elaborado pelo secretário Américo Giannetti e o ampliou, com o vasto e corajoso projeto de Energia e Transportes. Atuou da mesma forma no governo federal, ao retomar o projeto de desenvolvimento de Vargas, mediante as grandes empresas estatais, com o seu ambicioso Programa de Metas. Ao apoiar a candidatura de José Serra ao governo da República, estou certo de que ele, ao ser eleito, agirá da mesma forma. Temos que agir como agiu Juscelino: continuar a construção da grandeza brasileira, mas não podemos nos limitar às obras materiais de infraestrutura, por mais necessárias elas sejam.

O problema maior é o da educação

O bom governante, diz Aécio, é um ser atormentado, porque tem que ver tudo ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo encontrar soluções, sempre urgentes. Sem o desenvolvimento da economia, o Tesouro não dispõe de recursos para o atendimento das pessoas, em suas dificuldades cotidianas. Mas de nada adianta o investimento nas grandes obras públicas e no fomento à economia, à espera de que se gerem recursos para aliviar o sofrimento cotidiano das pessoas. É preciso dividir os recursos para o atendimento, nunca perfeito, das necessidades de todas as horas.

O problema maior é o da educação, o mais elementar instrumento para a realização democrática e a grandeza nacional. A inteligência e o bom-senso são convocados a resolver esse grave problema histórico brasileiro. Temos que reconhecer a injustiça contra os pobres. No passado e até tempos recentes havia a ideia absurda de que os filhos dos trabalhadores não precisavam de educação; quando muito, deviam ser adestrados, para a realização das tarefas elementares, como as do campo, as do serviço doméstico e as da construção civil. Temos que entender que o melhor trabalhador deve ser um homem bem instruído. E que, sem uma educação elementar excelente, nunca teremos uma boa universidade. Sem prejuízo das ferrovias, dos hospitais de qualidade, da boa estrutura de segurança pública, temos que investir prioritariamente na educação pública.

Atuação dos governadores

Provoco o entrevistado, ao lembrar o incipiente movimento entre candidatos à reeleição em alguns estados e ex-governadores que disputam o Senado, de exercerem uma influência coordenada em defesa da Federação. Esse projeto é coerente com as ideias que Aécio defende para a ação moderadora do Senado. Lembro-lhe que seu avô chefiou movimento semelhante, em seus contatos com os outros governadores eleitos em 1982. O movimento das diretas nasceu do encontro de Foz do Iguaçu, iniciativa dos governadores de Minas, de São Paulo e do Paraná, e o apoio dos demais escolhidos pela oposição.

Aécio concorda com a responsabilidade dos governadores na direção dos destinos nacionais, e acha legítima sua influência.

Temos que ter todos os cuidados, para que essa influência não se exerça em defesa de interesses regionais menores. São legítimas as reivindicações dos governos em benefício de seus estados e suas regiões, mas é necessário separá-las do cuidado comum com a condução política do Estado Nacional, em sua responsabilidade com o país inteiro e em suas relações com o mundo. O Brasil são todos os seus estados e todos os seus municípios, é a inteira comunidade nacional. Sua unidade não será concreta, se não for resultado da vontade de todos; ela não pode ser imposta pelos ocupantes do governo geral.