Especialista: "mão do homem" pode ter agravado ressaca em SC

Fabrício Escandiuzzi , Portal Terra

FLORIANÓPOLIS - A destruição causada pela ressaca que assusta moradores de Florianópolis (SC) teria como principal causa a "mão do homem". A hipótese foi levantada pelo professor Elói Melo, da Universidade Federal do Rio Grande, em visita aos estragos causados na praia da Armação, região sul da capital catarinense. De acordo com ele, a erosão e o avanço do mar pela costa levariam décadas para se concretizar levando em conta apenas as causas naturais.

"Esse avanço ocorre em várias partes do mundo, mas a escala de tempo é muito grande", disse. "Aqui na costa catarinense, isso está acontecendo de uma forma muito rápida e intensa. Por isso, é possível que outros fatores além dos naturais estejam causando esse fenômeno. Em todos os episódios estudados pelo mundo verificamos que o homem acelera esse processo de destruição", afirmou.

Melo é engenheiro e possui doutorado em Ciências Oceânicas. Há trinta anos se dedica a estudar o mar e, principalmente, as ondas. Ele disse ter se assustado com a velocidade de destruição causada na praia da Armação. Sem querer apontar um único culpado pelo problema, ele comentou a existência do molhe de pedras criado para ligar à praia à ilha das Campanhas.

"Isso é uma especulação e tudo tem que ser estudado de forma criteriosa. A linha da costa é um sistema muito delicado e que tem seu equilíbrio. Uma única alteração causa uma série de impactos", disse, citando o molhe. "Ele interrompeu uma importante comunicação entre as praias da Armação e do Matadeiro. A natureza mantinha essa ligação para a finalidade de acumular e transitar sedimentos entre as duas praias. Com o isolamento das duas, a praia precisa se readaptar", afirmou.

Para muitos dos moradores, o molhe que liga a praia à ilha seria o causador do problema. A estrutura, de pouco mais de 40 m, conta com pedras em sua parte inferior que inibem a passagem de água entre as duas praias. "Isso é uma vergonha, Está na cara que foi o homem quem causou este tipo de desastre", afirma a moradora Fabiana Maria Chagas, 41 anos.

O professor preferiu não citar a estrutura de pedras como o principal causador dos problemas e sim, como um "candidato". "Estamos especulando, pois é necessário um estudo bem aprofundado deste sistema. Mas para mim, este é um candidato a ter agravado a situação", afirmou Melo. Para ele, a solução "emergencial" seria o enrocamento - estrutura de pedra destinada à proteção contra efeitos erosivos causados pela água - da praia para proteger as construções das ondas. "Com pedras grandes que as ondas não consigam mover. Com isso, teríamos um pouco mais de tempo para estudar e pensar no que fazer", disse.

Quem vive da pesca garante que a culpa não seria da estrutura. O pescador Alex Vieira, 28 anos, disse que o molhe sempre existiu e aponta o aquecimento global como o causador do problema. "Meu avô tem 89 anos e diz que o molhe sempre foi daquele jeito. Algumas pedras foram até retiradas para servir de âncora", afirmou. "O ano passado já não tivemos praia e agora sumiu de vez. O aquecimento global elevou o nível da água. Não foram os moradores que invadiram a praia, foi o mar que subiu", disse.

O prefeito Dário Berger (PMDB) concorda com o especialista sobre a interferência do homem no local, mas também preferiu não eleger um culpado pelas mudanças. Para ele, o esforço agora é tentar "salvar o que resta". A responsabilidade sobre a região costeira é da União, mas a prefeitura decretou emergência e negociou com órgãos ambientais e o Ministério Público (MP) para obter agilidade em licenças ambientais. "Montamos uma mega-operação e mostramos a todos os órgãos fiscalizadores a necessidade de obras emergenciais. A situação é muito crítica e o isolamento de algumas áreas vai impedir mais destruição".

O projeto de enrocamento visa a conter o avanço do mar e proteger a costa em ressacas mais severas. Depois dele, governo do Estado e prefeitura irão começar a desenvolver um plano de recuperação da praia.

Mas, segundo moradores, o problema na Armação não é apenas com os episódios de ressaca, bastante comuns entre maio e agosto. Para eles, o mar avançou de uma forma "rápida" nos últimos três meses e não recuou mais. A cada nova ressaca, as ondas batem diretamente nas casas. Segundo moradores que sempre frequentaram a região, como Athaíde Silva, a praia nunca havia vivido situação semelhante. "O mar subia nas ressacas, atingia a costa, mas depois devolvia a praia", disse. "Ele não está recuando e a cada ressaca avança mais sobre as casas".

Emergência

A prefeitura de Florianópolis decretou situação de emergência e conta com a ajuda de soldados do Exército para realizar a construção de uma barreira com sacos de areia. Até mesmo moradores estão trabalhando como voluntários no meio da rua para ensacar a areia. Nesta semana, uma das casas condenadas acabou demolida pela prefeitura. Ao todo, já são sete residências interditadas e pelo menos 70 afetadas na cidade.

Muro

A cidade receberá R$ 10 milhões do governo federal, em caráter de emergência, para a realização de obras que possam conter o avanço do mar na praia da Armação. O anúncio foi feito na quinta-feira pela senadora Ideli Salvatti (PT) e pelo prefeito. Ele disse que órgãos ambientais e integrantes do Ministério Público participaram das reuniões para se chegar a um acordo sobre o que deveria ser feito.

Um muro de pedras de aproximadamente 80 mil m² será construído na praia para tentar conter o avanço do mar e evitar que a água atinja casas e um rio da região. Na estrutura, serão utilizadas pedras de 2 t que poderão suportar o impacto do mar. O muro, entretanto, não é a solução definitiva para o problema, disse Berger.