PF prepara-se para proteger os candidatos

Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - A Polícia Federal prepara um megaesquema de segurança para atender os candidatos à Presidência nas eleições de 2010. O aparato terá 40 policiais fixos, designados pela Coordenação Geral de Defesa Institucional, em Brasília, e contará ainda com o apoio de policiais das 27 superintendências regionais, sempre que os candidatos se deslocarem de suas bases para fazer campanha no interior do país.

Aguardamos as convenções para fazer o contato com os candidatos diz o delegado Carlos Henrique Maia Barbosa, chefe da Divisão de Segurança de Dignitários, responsável pela coordenação de todo o aparato que será empregado na eleição.

Para garantir a normalidade das eleições, e a integridade física de quem irão proteger, os policiais fazem algumas exigências.

Os candidatos devem se submeter às regras de segurança, abrir suas agendas e agir com o máximo de transparência alerta Barbosa, que aguarda a realização das convenções partidárias, marcadas para junho, para fazer contato com os candidatos e suas assessorias.

O esquema já está azeitado e deverá entrar em campo a partir de 7 de julho. A PF tem a atribuição de organizar o esquema de segurança, mas os partidos podem aceitar ou não a companhia dos federais.

Caso não haja nenhuma desistência no meio do caminho, as eleições deste ano terão 12 presidenciáveis, e todos eles, sem exceção, podem requisitar a segurança da Polícia Federal, definida por legislação específica (lei 7474, de 1986). Uma das preocupações da polícia é com a temperatura das eleições deste ano que promete ser uma das mais renhidas da história recente as dimensões continentais do Brasil e a diversidade cultural do eleitorado, que reage de forma diferente em cada região.

O papel dos federais se encerra com o resultado final das eleições, no primeiro ou no segundo turno, mas pode se estender até o dia da posse, em 1º de janeiro de 2011. Depois, presidente eleito passa a ser protegido por militares das Forças Armadas, designados pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

Por um princípio de segurança, a PF não informa o número de agentes que atenderá cada campanha, mas diz que a estratégia é de aproximação, com policiais colados ao candidato e sempre atentos a todos os passos do postulante, durante os três meses em que o pleito durar. Além da formação clássica dada pela Academia Nacional de Polícia, em Brasília, o grupo recebe treinamento especial para atender autoridades e, ao mesmo tempo, identificar riscos.

Cada equipe será coordenada por um delegado que, de Brasília, fará a articulação com as superintendências regionais, encarregadas de fazer a varredura nas chamadas ações precursoras, que antecedem os eventos. Os coordenadores também requisitarão o auxílio das policias estaduais, das tropas de choque ou de esquadrões anti-bombas, caso surja a suspeita de atentado. A PF também usará seu setor de inteligência para monitorar as redes de comunicação em cada região em que os encontros políticos estiverem agendados.

Embora as eleições no Brasil, com raras exceções, tenham sido marcadas por um clima de normalidade, a preocupação da polícia é com tumultos que possam envolver riscos físicos, tentativas de desestabilizar ou mesmo constranger os candidatos. Um das grandes dificuldades do aparato de segurança é a resistência dos candidatos em se sujeitar às regras da polícia. A informalidade, o inevitável contato humano numa eleição calorosa como é no país e, especialmente, o descuido dos candidatos em relação às regras que devem ser seguidas, é sempre um prato cheio para uma ação criminosa organizada ou uma agressão de adversários ou um ato promovido por pessoas infiltradas entre os eleitores.

Um dos precedentes mais graves registrados na história do país e que acabou servindo de alerta para os políticos foi o assassinato do ex-senador Olavo Pires, candidato a governador de Rondônia nas eleições de 1990. Pires foi executado com tiros de pistola e uma rajada de metralhadora em meio à campanha eleitoral quando chegava a uma manifestação de professoras em frente a uma de suas empresas em Porto Velho e, mesmo sabendo que corria riscos, misturou-se à multidão, sem perceber os criminosos. A ação dos bandidos foi rápida, sem chances de reação. Pires não contava com segurança.

Delegados ganharam

a confiança dos eleitos

Durante o período militar, com eleição para a Presidência restrita ao interior do Congresso Nacional, os candidatos não precisavam de segurança. Nem às ruas eles iam. De 1964 a 2005, período de vigência da ditadura, o presidente da República era indicado pelas Forças Armadas. O Colégio Eleitoral, formado por senadores e deputados, apenas homologava o nome. A Polícia Federal só passou a cuidar da integridade dos candidatos a partir da primeira eleição direta, em 1989, quando o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, disputou o cargo, perdendo para o hoje senador Fernando Collor de Mello.

Collor organizou seu próprio esquema de segurança, mas Lula não abriu mão da estrutura disponibilizada pela PF. Em 2009 e nas três eleições seguintes que disputou, o coordenador seria o delegado federal Francisco Baltazar da Silva, que, depois de 2002, poderia ter sido recompensado com o cargo que escolhesse dentro do DPF. Preferiu o comando da superintendência da PF em São Paulo, onde exonerou-se em 2004, depois de denúncias de envolvimento de seus principais assessores com doleiros paulistas.

Logo depois da eleição de 2002, um dos policiais encarregados da coordenação da segurança em Brasília conquistaria a confiança do presidente. O delegado Luiz Fernando Corrêa virou secretário nacional de Segurança e, em 2007, depois de uma crise interna que terminou com a exoneração do ex-diretor, Paulo Lacerda indicado pelo então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos assumiu o comando da Polícia Federal, já na gestão do ex-ministro Tarso Genro.

Nas duas eleições do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998, a Polícia Federal foi responsável pelo esquema de segurança. Um dos policiais que ficaram colados ao candidato foi Fernando Chelotti, que virou amigo da família. No primeiro mandato de FHC, a direção geral do DPF foi entregue a um irmão do agente, o delegado Vicente Chelotti, amigo e homem de confiança do então ministro da Justiça, Nelson Jobim, hoje no comando do Ministério da Defesa.