Parentes de bebês mortos em UTIs cobram punição de responsáveis

Chico Siqueira, Portal Terra

ARAÇATUBA -

A falta de leitos e as infecções decorrentes da superlotação das UTIs neonatais podem ter causado a morte de ao menos nove bebês desde dezembro de 2007. No entanto, ninguém foi responsabilizado pelos óbitos até agora.

A última morte foi em 19 de março, na Santa Casa de Guararapes, cidade próxima a Araçatuba. Ivonete Soares da Silva perdeu a filha 20 minutos após o parto. Na ocasião, o diretor clínico do hospital, Rangel Costa, disse que, depois dois dias sem conseguir vaga em UTI neonatal, teve de improvisar uma sala para fazer o parto porque Ivonete corria risco de vida.

Revoltado com a morte, o tio da criança Wesley Matos chutou a porta do pronto-socorro. O delegado de polícia de Guararapes, Fábio Pistori, disse desconhecer os motivos da morte e que o inquérito aberto apura apenas crime de danos cometido por Matos. "Mas se houver mais informações vamos apurar outros crimes", disse Pistori, que afirma aguardar laudo necroscópico para dar andamento ao inquérito.

"Entramos em choque porque a morte foi inesperada. Houve enrolação para transferir minha irmã, que perdeu o bebê e ainda poderia até morrer, sem ter culpa de nada. Fiquei revoltado com o que aconteceu, mas você queria o quê, que aceitássemos tudo normalmente? O que nós queremos agora é que a Justiça seja feita. Foi perdida uma vida e deve haver responsável por isso", disse Matos.

Outras seis mortes ocorreram por infecções nas UTIs neonatais de Araçatuba e do Hospital Base. Na primeira, três bebês prematuros (de 6 a 8 meses) morreram entre os dias 6 e 9 de dezembro de 2009. A suspeita é de que os bebes teriam sido retirados antes do prazo da UTI neonatal para liberar vagas e depois adquiriram a infecção no berçário do hospital. O caso está no Ministério Público, onde o promotor Lindson Gimenes de Almeida diz aguardar perícia técnica para dar andamento às investigações.

Em Rio Preto, o MP arquivou a denúncia sobre a morte de outros três bebês, ocorridas em agosto de 2009. Os três faziam parte de um grupo de 15 bebês que contraíram infecção hospitalar na UTI neonatal e na emergência pediátrica do HB. Depois de passar pela polícia, o inquérito chegou ao Ministério Público em 25 de fevereiro deste ano sem apontar culpados. O promotor Júlio Sobotka pediu arquivamento, com o qual a Justiça concordou.

Outras duas mortes ocorridas por falta de UTI neonatal também ficaram sem punição porque o inquérito que apurava o caso foi arquivado. Trata-se das gêmeas Layane e Lorraine, que morreram em dezembro de 2007, depois que a mãe delas, a empregada doméstica Rita de Cássia dos Santos, ficou internada dois dias na Santa Casa de Fernandópolis, próxima a Rio Preto, à espera de vagas que deveria ser providenciada pela Central de Regulação de Vagas de Rio Preto. A central, que é um órgão de responsabilidade da Secretaria de Estado da Saúde, tem como função conseguir vagas quando não há leitos em UTIs da região onde a paciente mora. Acontece que nem sempre há vagas disponíveis na hora.

A Secretaria de Saúde admitiu que a paciente Ivonete Soares da Silva, cuja filha morreu ao nascer, em Guararapes, ficou ao menos 24 horas sem ser removida pela Centra de Regulação por falta de vagas. Mas de acordo a assessoria, o pedido de remoção chegou à central na manhã do dia 18 de março, e familiares e a Santa Casa decidiram operar a paciente no dia 19.