"Fome não faz revolucionários, faz pedintes", afirma Lula

Claudia Andrade, Portal Terra

BRASÍLIA - Ao discursar na abertura do evento "Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar", em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a segurança alimentar deve ser vista como uma "questão de soberania" e que quem tem fome "não pensa". "Não tem nada mais importante para cada país, para cada povo do que a segurança alimentar como forma mais extraordinária de garantir a soberania e auto-determinação dos povos. Se um país tiver a arma mais poderosa que tiver, mas não tiver a comida de cada dia do seu povo plantada no seu território ou comprada fora, esse país não tem soberania".

O presidente disse que é preciso ter o combate à fome como prioridade orçamentária, pois quem tem fome não tem como protestar para garantir uma parte do orçamento. "Se a gente esperar sobrar dinheiro do orçamento pra combater a forme nunca vai sobrar porque os que têm acesso ao orçamento são gananciosos e querem o dinheiro todo para eles, e não sobra para os pobres".

"Precisamos garantir a cada cidadão do país que ele possa ter o café da manhã, o almoço e o jantar de cada dia. Porque quem tem fome não pensa. A dor do estômago é maior do que muita gente imagina. E a pessoa que tem fome não vira revolucionário, vira pedinte, vira dependente. A fome não faz o guerreiro que gostaríamos que fizesse, a fome faz um ser humano subserviente, humilhado e sem forças para brigar contra seus algozes responsáveis pela fome", afirmou o presidente.

Eleição

Lula destacou ainda a mudança de direção dos líderes eleitos ao iniciar seu governo. Para ele, ser eleito pelos mais pobres não significa governar para esta camada da população. "Se os dirigentes políticos no mundo não estiverem, cotidianamente, comprometidos com as pessoas que estão em piores situações em seu Estado, em seu país, fica mais difícil tomar decisão em benefício dos mais pobres. A verdade é que normalmente somos eleitos pelos mais pobres, mas quando ganhamos as eleições quem tem acesso aos gabinetes são os mais ricos."

"Normalmente a campanha é feita para os pobres, o problema é que na hora de governar o pobre sai da agenda. São os ricos que indicam ministros, assessores, eles determinam a política que se tem de fazer", disse Lula. O discurso foi feito depois de Lula receber o prêmio de "Campeão Mundial da Luta contra a Fome", concedido pelo Programa Mundial de Alimentação das Nações Unidas. A placa foi entregue ao presidente pela diretora executiva do programa, Josette Sheeran.

"O presidente (Barack) Obama já chamou o presidente Lula de o presidente mais popular do mundo e eu acredito que isso tem muito a ver com sua batalha no combate à fome no mundo", afirmou Sheeran, acrescentando que "nenhum país venceu a fome sem o compromisso dos seus líderes".