Sem dinheiro, muitos pacientes com doenças crônicas deixam tratamento

Da redação, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O acesso a medicamentos de uso contínuo para enfermidades crônicas ou recorrentes, como as doenças cardiovasculares e a hipertensão, ainda é uma dificuldade no Brasil, sobretudo para as pessoas mais pobres. O alerta é da diretora da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Andréa Brandão. De acordo com a médica, que citou dados de Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Saúde (Conass), 51,7% dos brasileiros que sofrem dessas doenças interrompem o tratamento por falta de dinheiro.

Andréa Brandão explicou que se um indivíduo ganha um salário mínimo e compromete entre R$ 40 e R$ 50 por mês com medicamentos ou com a manutenção da boa saúde familiar, isso representa em torno de 10% do que ele recebe.

Acaba sendo uma relação que compromete muito o tratamento disse.

Segundo Andréa, as classes econômicas mais baixas são as mais prejudicadas.

A diretora da SBC disse ainda que o governo vem tentando fazer algo que facilite o acesso da população, por meio dos medicamentos da cesta básica, que estão disponibilizados nas farmácias populares em valores reduzidos. A médica reconheceu, no entanto, que a cesta não inclui todos os medicamentos que os especialistas gostariam.

Você tem aí uma facilidade para acessar alguns medicamentos, mas não são todos e nem sempre atendem aos casos dos pacientes. afirma. E nem todos os pacientes conseguem manter o tratamento, por razões diferentes.

Além da falta de dinheiro para acessar os medicamentos, Andréa relatou que existem também fatores culturais e sociais que precisam ser revistos.

No caso da hipertensão, há necessidade de que a população seja mais instruída em relação à doença e ao uso continuado do tratamento indica a cardiologista.

Para quem sofre de hipertensão (pressão alta), Andréa Brandão afirmou que a principal dificuldade é manter (o doente) sob tratamento contínuo, para o resto da vida . Existem problemas financeiros para custear o tratamento, que abrange não só a compra de medicamentos, mas também a realização de consultas médicas e o acesso aos exames necessários para uma boa avaliação.

Segundo a especialista, o sistema público de saúde brasileiro é bom, mas não supre tudo que a população necessita.

Ele (Sistema Único de Saúde SUS) pretende atender a maior parte da população brasileira, mas a gente reconhece que há deficiências.

A diretora da SBC participou, na quinta-feira, do simpósio Acesso a Medicamentos e Adesão a Tratamentos. O objetivo do evento foi chamar a atenção dos médicos e dos hipertensos, principalmente, para que o tratamento seja contínuo, ininterrupto.

Para que haja um sucesso realmente. Não adianta a pessoa com pressão alta tomar um remédio um mês e parar porque a pressão ficou normal.

Andréa Brandão salientou que é preciso que as pessoas hipertensas compreendam que o tratamento é de longo prazo e não deve ser interrompido. Ela destacou ainda que as doenças cardiovasculares são o principal modelo de doença crônica que necessita de tratamento prolongado, além de constituírem a principal causa de morte no Brasil.