Ex-delegado diz ser vítima de quadrilha que decapitou 2 em MG

Ney Rubens, Portal Terra

BELO HORIZONTE - O ex-delegado da Delegacia Regional do Trabalho de Minas Gerais Carlos Calazans procurou o Departamento de Investigações da Polícia Civil em Belo Horizonte para informar que também foi vítima de extorsão, agressões e abuso sexual por parte do empresário e estudante de Direito de 35 anos que foi preso na semana passada por extorquir, matar e decapitar os empresários Rayder dos Santos Rodrigues e Fabiano Ferreira Moura.

Rodrigues e Moura foram mortos e decapitados no dia 9 de abril, no apartamento do suspeito. Os corpos deles foram encontrados carbonizados em uma mata de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte. Depois de identificados por meio de exames de DNA, eles foram entregues às famílias e enterrados nesta quarta-feira.

Em depoimentos, os seis envolvidos presos, incluindo dois policiais militares, uma médica, um norte-americano e um outro estudante de Direito, disseram que os empresários foram mortos após terem sido extorquidos pelo estudante de Direito.

O ex-delegado Calazans afirmou à polícia no dia 15 de setembro do ano passado que foi atraído à empresa do suspeito, a agência de comunicação 404, no bairro Cidade Jardim, pela irmã do suspeito. No local, ele foi mantido em cárcere privado por cerca de cinco horas, período em que foi torturado e extorquido.

O ex-delegado da DRT é primo do estudante suspeito, que queria, segundo Calazans, R$ 1 milhão que ele supostamente teria. Para conseguir a quantia, o empresário, que estava acompanhado de outros dois homens, teria dito que mataria o neto de Calazans e arrancaria a cabeça dele.

"O ritual é o mesmo. Tudo o que me aconteceu do dia 15 para o dia 16 parece mesmo que ele (o suspeito) vinha praticando até hoje. O modo de como faziam, a chantagem, a extorsão, a violência, esse negócio macabro de cortar a cabeça é um negócio muito próprio dele," disse Calazans.

"Eu tive que descrever praticamente todo o episódio para a doutora Elenice (Batista - delegada que apura o caso), com riqueza de detalhes. Tudo que ocorreu desde a manhã do dia 15 de setembro, quando aconteceu o primeiro telefonema, até quando eu saí da delegacia, quando eu terminei o boletim de ocorrência. Então, descrevi todo o episódio, item por item, cada hora, cada coisa que aconteceu que pudesse contribuir para todo esse inquérito," afirmou.

Por medo das ameaças do primo, Calazans se mudou para o Rio de Janeiro. "Quando eu cheguei a Belo Horizonte, eu recebi um telefonema para ler os jornais e vi que o Frederico estava preso, suspeito do que aconteceu com os empresários no fim de semana retrasado. Eu entrei em estado de choque, confesso que eu fiquei assim, em desespero, a minha vista escureceu, a pressão caiu, eu entrei em desespero, porque tudo veio na minha cabeça, tudo que aconteceu, e eu pude perceber que realmente poderia acontecer comigo o que aconteceu com esses moços aí".

À época, o ex-delegado procurou a polícia e denunciou o primo. O caso vinha sendo investigado pelo 1º Distrito Policial da Seccional Sul.

Homem frio, inteligente e cruel

Os delegados que apuram a morte dos empresários Rayder dos Santos Rodrigues e Fabiano Ferreira Moura são unânimes em dizer que o homem suspeito de ser o líder da quadrilha "é muito inteligente, cruel, manipulador e perigoso."

"É uma pessoa altamente manipuladora, envolvia as pessoas na trama dele, aterrorizava as pessoas e fazia com que as pessoas fizessem o que ele mandava, tendo como segurança e cúmplices os policiais que também auxiliavam nessas torturas", afirmou o delegado Edson Moreira.

Além dos empresários e do ex-delegado Carlos Calazans, o estudante de Direito também teria extorquido e torturado o ex-sócio dele na agência 404 Comunicação, Vinicius Mol. O jovem teria sido agredido durante várias horas para que entregasse dinheiro a ele. Como o rapaz alegou não ter grande quantia, o suspeito roubou telefone celular, cartões de crédito e outros pertences, segundo a polícia.

Para agredir e torturar as vítimas, o suspeito utilizaria sempre de métodos violentos apurados de filmes que ele gostava de assistir. No apartamento dele a polícia apreendeu DVD's e livros de guerra, de apologia ao Nazismo, máfias e também de artes marciais.

Motivo

De acordo com os depoimentos dos envolvidos, os quais o Terra teve acesso, os empresários Rayder dos Santos Rodrigues e Fabiano Ferreira Moura foram escolhidos pelo estudante suspeito como alvos porque participavam de um esquema de lavagem de dinheiro de empresas do ramo de informática envolvidas em um mega esquema de contrabando.

De acordo com as declarações dadas em depoimentos pelos suspeitos presos, o grupo torturou durante 2 dias as vítimas para que elas dissessem como chegar ao suposto líder do esquema, um homem identificado apenas como Marcinho.