GO: policiais dizem que ordens eram de não incomodar pedreiro

Márcio Leijoto, Portal Terra

GOINIA - Os agentes policiais Luciano Melo de Oliveira e Carlos Augusto Dias Dourado, que estavam de plantão na Delegacia de Repressão a Narcóticos (Denarc), em Goiânia, na tarde do último domingo, quando o pedreiro Ademar de Jesus Silva, 40 anos, foi encontrado morto em uma das três celas da unidade, disseram em depoimento à Corregedoria da Polícia Civil na tarde desta terça que receberam "ordens superiores" para que o preso não fosse "molestado".

"Molestado tem uma abrangência muito grande. Eles podem ter interpretado que era para não entrar na cela e, se assim fizeram, agiram corretamente", comentou o corregedor-chefe Sidney Costa e Souza.

Ademar é o principal suspeito de abusar sexualmente e matar seis jovens entre 13 e 19 anos em Luziânia (GO), no entorno do Distrito Federal, entre os dias 30 de dezembro e 22 de janeiro. Ele foi preso no dia 10 de abril e estava na carceragem da Denarc desde o dia 11. No dia 18 ele foi encontrado enforcado com uma trança feita supostamente com retalhos do tecido que reveste o colchão da cela, na qual ele estava sozinho. Na delegacia havia mais dez presos e os dois agentes plantonistas.

O corregedor agora quer saber mais detalhes sobre essa ordem repassada aos agentes, já que a polícia tinha o receio de que o preso pudesse se matar. Ademar havia ficado em uma sala onde poderia ser observado com mais freqüência e a delegada titular da Denarc, Renata Cheim, já havia dito que estava negando ao preso cobertas e roupas de frio com medo que ele tentasse o suicídio.

Os presos comentaram ainda no domingo que ouviram Ademar rasgando o tecido do colchão na tarde de sábado. Os agentes confirmaram que não fizeram nenhuma vistoria na cela, passando toda a manhã na recepção da delegacia. "Tudo indica que houve uma falha no sistema que permitiu que ele se matasse, se confirmado o suicídio. Precisamos agora ter cautela e ouvir todo mundo. Vamos ouvir os outros presos e no final a delegada, para sabermos onde houve o erro", disse o corregedor.

Souza afirma que, apesar de o preso estar em uma delegacia, não é função da Polícia Civil manter presos detidos e isso é "uma colaboração" que a entidade faz para o sistema prisional do Estado. "Só que não temos espaços adequados para abrigar presos. Nem as cadeias. Não é um problema só de Goiás, mas do País todo", disse.

No resto do depoimento, os agentes explicaram que entraram no expediente às 8h e não tiveram acesso à cela, exceto no almoço, quando um deles acompanhou o entregador de marmitas e deixou duas delas com Ademar. "Mas eles não chegaram a entrar na cela, passaram a comida pela grade, segundo o agente disse no depoimento", afirmou Souza.

Eles também disseram que só viram o corpo de Ademar pendurado na trança quando os presos os chamaram por causa do chuveiro que estava aberto na cela do pedreiro sem que este se manifestasse quantos aos pedidos para que o desligasse.

Nos próximos dias, serão analisados os laudos que estão sendo elaborados pelo Instituto Médico Legal (IML) e de Criminalística (IC), além das fitas de vídeos das câmeras que ficam na delegacia. "As câmeras não mostram as celas, mas quem teve acesso a elas", disse Souza.

Como Ademar conseguiu amarrar a trança na barra de ferro da janela ainda é um mistério para a polícia, já que só esticando o braço ele não conseguiria. "Precisamos apurar isso. Ele pode ter usado o colchão dobrado para ganhar altura ou um rodo que os outros presos passaram para ele ligar o chuveiro", afirmou

O laudo do IML diz que Ademar morreu enforcado, em uma posição característica de suicídio, mas só o laudo do IC pode apontar se ele fez isso sozinho ou se teve ajuda.

Jovens de Goiás

Entre os dias 30 de dezembro de 2009 e 22 de janeiro deste ano, seis jovens com idades entre 14 e 19 anos desapareceram em Luziânia, a 196 km da capital Goiânia (DF). O caso ganhou repercussão nacional e foi investigada, além da polícia, pela CPI do Desaparecimento de Crianças e Adolescentes, da Câmara dos Deputados. O paradeiro dos jovens só foi solucionado na manhã de sábado, 10 de abril, quando o pedreiro Adimar de Jesus Silva, 40 anos, foi preso acusado de estuprar e matar os rapazes. Ele mostrou à polícia o local onde estavam os corpos dos garotos e, em entrevista, se disse arrependido e afirmou que pensava no sofrimento dos familiares dos jovens mortos. O pedreiro também declarou que foi vítima de abusos sexuais no passado e disse que cogitou o suicídio após a repercussão das mortes.