MP pede imagens de delegacia onde suspeito morreu em GO

Márcio Leijoto, Portal Terra

GOINIA - O procurador-geral de Justiça de Goiás, Eduardo Abdon de Moura, pediu nesta segunda-feira que o corpo do pedreiro Ademar de Jesus Silva, 40 anos, encontrado morto em uma cela da Delegacia de Repressão a Narcóticos (Denarc) na tarde de ontem, permaneça no Instituto Médico Legal (IML) até que todos os exames que apuram a causa e as circunstâncias da morte sejam concluídos. Moura também requisitou a abertura de um inquérito policial, além da entrega de cópias das imagens de vídeo das câmeras instaladas na delegacia, da escala de agentes e do depoimento do pedreiro dado à CPI da Pedofilia na tarde do dia 12.

"A morte trouxe prejuízos irreversíveis para as investigações que ainda estão em curso. Ele veio para Goiânia porque sua integridade era imprescindível para elucidar todas as dúvidas neste caso e agora foi encontrado morto. Por isso tomamos todas as medidas para saber em que circunstâncias essa morte se deu e ver que tipo de responsabilização cabe ao Estado", afirmou.

O procurador disse não haver indícios que contrastem com a versão apresentada pela polícia de que o pedreiro se enforcou com uma trança feita com o tecido que revestia o colchão usado por ele na cela. Entretanto, afirmou que mesmo assim cabe ao Estado a responsabilidade pela integridade do preso. "É um caso de responsabilizar civilmente. Vamos investigar agora para ver se cabe responsabilidade criminal pela morte", disse.

Ontem, o promotor Carlos Wolff, do Grupo de Repressão ao Crime Organizado do Ministério Público Estadual (Greco/MPE), acompanhou o depoimento de três presos que estavam na cela ao lado à de Ademar e parte do trabalho dos peritos do IML e do Instituto de Criminalística (IC). Ele deve ouvir também os outros oito presos que estavam na delegacia, além dos dois agentes que estavam no plantão de domingo.

Segundo Wolff, não há até o momento indícios de que o pedreiro não teria se suicidado, como vem sendo especulado por algumas autoridades e familiares das vítimas.

O promotor de Luziânia, Ricardo Rangel, que foi a Goiânia para acompanhar as investigações sobre a morte de Ademar, afirmou que a principal preocupação do Ministério Público é com as conseqüências da morte para a conclusão do inquérito que apura os crimes os quais Ademar é suspeito.

"Foram dezenas de diligências, foram gastos inúmeros recursos, envolveu dezenas de agentes e delegados das polícias Civil e Federal para ter esse resultado. A morte dele comprometeu tudo. E vamos supor que os exames de DNA apontem que um dos corpos encontrados não é dos seis jovens desaparecidos, como fica? Como vamos descobrir quem é?", disse.

Moura afirma que as investigações policiais podem continuar, apesar da morte do pedreiro. A polícia ainda apura a passagem de Ademar por cinco cidades brasileiras e os passos dele em Luziânia entre agosto e dezembro do ano passado, quando teve direito a saídas temporárias da cadeia. Quer descobrir se ele fez outras vítimas. "Mas se identificarem alguma nova vítima, como vão poder confirmar, se ele está morto?", afirmou o promotor.

Para Rangel, a morte de Ademar vai fazer com que a versão apresentada por ele, manchando a imagem dos jovens, permaneça. "Ele falou coisas que mancharam a imagem dos jovens, falando que eram usuários de drogas, que mantinham relações sexuais com ele e isso nunca poderá ser esclarecido", disse. O promotor também afirmou que a morte levará o Estado a ter de indenizar a família de um possível criminoso, "com o absurdo de no futuro alguém poder alegar que ele é inocente porque não teve o direito de se defender", disse.

No domingo, Moura havia solicitado que Wolff e Rangel acompanhassem as investigações que estão sendo feitas a respeito da morte de Ademar.

Jovens de Goiás

Entre os dias 30 de dezembro de 2009 e 22 de janeiro deste ano, seis jovens com idades entre 14 e 19 anos desapareceram em Luziânia, a 196 km da capital Goiânia (DF). O caso ganhou repercussão nacional e foi investigada, além da polícia, pela CPI do Desaparecimento de Crianças e Adolescentes, da Câmara dos Deputados. O paradeiro dos jovens só foi solucionado na manhã de sábado, 10 de abril, quando o pedreiro Ademar de Jesus Silva, 40 anos, foi preso acusado de estuprar e matar os rapazes. Ele mostrou à polícia o local onde estavam os corpos dos garotos e, em entrevista, se disse arrependido e afirmou que pensava no sofrimento dos familiares dos jovens mortos. O pedreiro também declarou que foi vítima de abusos sexuais no passado e disse que cogitou o suicídio após a repercussão das mortes.