Escola especial deve servir como apoio para inclusão de alunos

Portal Terra

REDAÇÃO TERRA - Ivani Marciel de Carvalho, mãe de Rafael, um menino de 12 anos com necessidade especial intelectual, decidiu há dois anos tirar seu filho de uma pequena escola particular e colocá-lo em uma grande instituição municipal da cidade de São Paulo. Matricular uma criança com necessidade especial em um colégio regular é uma dúvida para muitos pais, mas bem aceita por educadores e profissionais da área.

Segundo os especialistas ouvidos pelo Terra, a escola especial deve servir de apoio à escola regular. Liliane Gracêz, Coordenadora dos Serviços Educacionais da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo (Apae), defende o trabalho em conjunto entre escolas regulares e escolas especiais. "O modelo separado já mostrou não dar certo, a questão é que muitos pais se preocupam com relação à rejeição", disse. Liliane afirma que as instituições fazem mediações e conversas com professores e conselho dos colégios.

A coordenadora-geral de Articulação da Política de Inclusão nos Sistemas de Ensino do Ministério da Educação (MEC), Sinara Pollon Zardo, também compartilha da mesma idéia. De acordo com ela, a escola regular é a responsável pelo currículo dos estudantes com deficiência intelectual e outras necessidades especiais. A especial serve como um apoio.

Como diz a Constituição Brasileira, a educação é um direito de todos, dever do Estado e da família. De acordo com Liliane Gracêz, as escolas não podem recusar um aluno com necessidades especiais. Para ela, a ideia agora é inibir essas escolas focadas somente em crianças especiais como se pensava antigamente. A tendência é incentivar a inclusão desses alunos em instituições regulares, porém, com atendimento específico, diz a coordenadora.

"As crianças especiais tem direito a duas escolaridades: a regular e um atendimento educacional especializado", disse. "No primeiro momento existe muito receio por parte dos pais e escolas, no entanto, depois notam que todos se beneficiam. O aluno, por fatores sociais e de aprendizagem, as instituições que repensam a metodologia de ensino, e também os outros estudantes que apreendem a conviver com as diferenças".

A psicóloga Ana Bock, professora de psicologia social e educacional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diz que partir da perspectiva da educação o que se espera do trabalho escolar na parte social é inserção cultural, como ler, aprender música, informática, entre outras coisas. Sendo assim, todos devem frequentar a escola regular, com suas características e singularidades.

"Educação inclusiva não é levar o deficiente para o espaço dos normais. É pensar a educação para todos", analisa a psicóloga. Segundo ela, o professor não tem tido a oportunidade de adquirir essa noção. Ana comenta que o docente sempre soube trabalhar as diferenças, afinal, as crianças apresentam muita diversidade, ele só precisa mudar a forma de trabalho.

"O professor deve estar atento para não destacar a particularidade do aluno, e também não fazer o contrário, escondendo. As crianças estão no momento excelente para trabalhar isso dentro delas, elas se vêem todas crianças", disse ela.

A coordenadora dos Serviços Educacionais da Apae de São Paulo afirma que não é fácil para uma escola adequar-se a todo tipo de necessidade especial. "Só nos formamos no cotidiano", disse.

A deficiência intelectual é apenas uma entre outras da categoria. As Necessidades Educacionais Especiais estão divididas em três grupos: o de deficiência, seja ela intelectual, visual, motora, física ou auditiva; transtornos globais do desenvolvimento; e superdotação. Para Ivani, mãe de Rafael, ainda falta preparo e investimento da parte das escolas e docentes para receber os alunos especiais. "Em minha opinião, os professores que não se identificam não devem ser forçados a trabalhar com casos como este, pois assim não perdem a paciência e não deixam a criança de lado", afirmou.

"A princípio fui arredia em relação à inclusão. Tinha medo da rejeição por parte de professores e alunos. Depois, médicos e pedagogos me orientaram e falaram dos ganhos de aprendizagem e socialização", disse a mãe de Rafael, que hoje cursa a quarta série do Ensino Fundamental.

Rafael é conhecido em sua escola, e participa de passeios e festas. "A rejeição é palpável, ela existe. Tive de parar de mandar bala nos lanches, pois tomavam dele. Em nossas conversas eu enfatizo que tem muitas pessoas que gostam dele. Na sala, uma estagiária acompanha o Rafael mais de perto, isso me deixa tranquila", disse Ivani.

O papel da Apae não é alfabetizar, mas desenvolve questões que ajudam neste recurso com atividades, o que promove um salto na aprendizagem. A dificuldade de Rafael no aprendizado é grande. De acordo com a mãe do estudante, a metodologia usada na escola regular deveria ser focada no que o aluno gosta. "Por exemplo, meu filho adora informática e esporte. Deveriam existir mecanismos que utilizam essa ferramenta para um melhor desempenho", disse.

Rafael frequenta e escola regular pela manhã, e no outro período faz atividades complementares, como esportes, na Apae. "Ainda existem escolas especializadas, voltadas apenas para alunos com necessidades especiais, mas estão dentro do contexto de política de inclusão. Já estão transformando seu projeto pedagógico", disse Sinara.

De acordo com dados do Censo Escolar Mec/Inep 2009, estão matriculados no Brasil 639.718 estudantes com necessidades especiais. Desse total, 56% (359.664) estudam em escolas regulares, e 31% (195.257) em especializadas. Frequentam classes especiais 13% (80.797), porém dentro da escola comum.