Cameron compara usina Belo Monte com 'Avatar'

Leandro Mazzini , Jornal do Brasil

MANAUS - Diretor dos dois maiores sucessos de bilheteria da história do cinema, Avatar e Titanic, com 11 Oscars na bagagem, o cineasta canadense James Francis Cameron mostrou que entende muito bem de filmes, mas não ainda da floresta amazônica. Embora tenha se revelado engajado na boa causa ambiental, Cameron causou uma saia justa em sua palestra no Fórum de Sustentabilidade em Manaus, no sábado. Disse que a usina Belo Monte é um erro, porque expulsa os ribeirinhos, e deixou um apelo ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para reconsiderar a construção da hidrelétrica. Cameron chegou a comparar o caso ao do seu filme Avatar, deixando implícita interpretação de que os ribeirinhos são o povo Navi, expulsos pelo exército no longa.

(A usina) vai destruir as comunidades ribeirinhas, vai mudar o curso do rio. Está acontecendo como os 'Navi', povos estão sendo ameaçados. Eu imploro ao presidente Lula para reconsiderar esse projeto.

O scripit ecológico seria um sucesso na palestra não fossem dois detalhes: a Belo Monte será construída na região de Altamira, no Pará, e não no Amazonas estado em questão à ocasião do debate. E Cameron, segundo disse ao JB o governador do Amazonas, Eduardo Braga, usou dados incorretos sobre a região e a construção da usina, passados por uma ONG chamada Amazon Watch. Em coletiva, depois, o cineasta fez um mea culpa discreto, o que não tirou o brilho de sua apresentação.

Em uma palestra de uma hora, Cameron criticou o desmatamento na Amazônia.

Em nenhum lugar a civilização está mais em confronto com a natureza do que no Brasil. Vocês estão enfrentando desafios, um desmatamento na floresta incrível.

Ecologista voluntário

Ele incitou a plateia ao debate consciente, com frases de efeito como temos um objetivo em comum para fazer o melhor pelo planeta, assim eu vejo vocês . A fala passou ao largo de um recado político. Cameron respaldou-se em dados oficiais e endossou especialistas sobre mudanças no meio ambiente no planeta.

Não temos muito tempo, cinco anos, talvez 10 anos, para começar a reverter esse processo. E aqueles que negam a crise do clima, e os demagogos, vão falar no rádio, mas os cientistas vão soar o alarme e enquanto isso vamos nos aproximando dessa catástrofe inédita alertou, para mais na frente fazer outra comparação com um de seus filmes, deixando o sinal de que a tragédia, se vier, será para todos. Quando o Titanic afundou, a primeira e a quarta classe... todos foram para o gelo.

Cameron revelou ser um ecologista voluntário. Disse que mora com mulher e filhos num sítio, onde tem horta com produtos orgânicos, onde cria cabras e delas tira o leite que toma à mesa, e lembrou que instalou um painel solar que sustenta a energia da casa. Foi com essa consciência que ele argumentou:

O crescimento é maravilhoso, todos os sábios dizem, é bom para a economia. Mas o que acontece quando crescemos do tamanho da placa (do planeta)... a morte. Os solos estão secando, o mar está ficando sem peixe e o petróleo está acabando. Já prospectamos tudo o que podíamos e a demanda continua aumentado. Já passamos do pico, e sem essa energia barata, teremos dificuldades.

Essa realidade, segundo Cameron, cria um confronto hoje entre a indústria que produz para o mercado e os ambientalistas que alertam para o preço disso. Classificou a investida dos primeiros de mecanismo de negação , que está acabando com a percepção sobre os perigos do mundo.

É o que nega temores de que o mundo está acabando, que está mudando. Nega os problemas. O mercado não tolera o custo da mudança. Se houvesse uma contabilidade real, o custo dos combustíveis fósseis não se compararia bem com os de energia renováveis.

Para Cameron, o mercado não dá valor aos serviços da natureza, e somente uma mudança global de valores, de consciência, vai nos permitir entender a crise. E parece que o mundo está pronto para entender .

Tal como um The End de um filme, ou scripit, o cineasta concluiu otimista de que há esforço para reverter isso. Ao passo que deixou outro alerta, como um diretor de suspense:

O Haiti não vai ser nada perto do que pode acontecer.