Isabella: delegada diz ter 100% de certeza da culpa dos Nardoni

Jornal do Brasil

SÃO PAULO - O segundo dia de julgamento do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, acusados pela morte da menina Isabella Nardoni, de apenas cinco anos de idade, crime que chocou o país em 2008, foi marcado pelo embate técnico sobre a solidez das provas produzidas contra os suspeitos durante as investigações da polícia e da perícia criminal. Acusação e defesa compartilharam testemunhas envolvidas na apuração do caso na tentativa de fazer prevalecer, junto ao júri, suas respectivas teses.

Para a defesa, em especial, após um primeiro dia considerado delicado, no qual o depoimento emocionado da mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, pode ter despertado a comoção dos jurados, o dia de terça-feira era fundamental dentro da estratégia de lançar dúvidas sobre a qualidade das evidências contra os Nardoni. O promotor Francisco Cembranelli, contudo, utilizou duas vezes as maquetes do edifício London, localizado na Zona Norte de São Paulo, onde Isabella Nardoni morreu em março de 2008, para ilustrar as evidências contra o casal. As miniaturas foram usadas durante o depoimento da delegada Renata Helena Silva Pontes.

As maquetes foram feitas especialmente para o julgamento, a pedido da acusação. Uma delas, que mostra o apartamento onde moravam os acusados, foi utilizada para que a delegada mostrasse o local das marcas de sangue encontradas no quarto dos filhos de Alexandre e Anna Carolina, local de onde Isabella foi jogada. A segunda maquete, que mostra a parte externa do prédio, foi usada por Cembranelli para mostrar detalhes sobre o sistema de segurança do local. A eventual falta de segurança do prédio já foi abordada diversas vezes pela defesa dos acusados como forma de justificar a existência de uma terceira pessoa no local do crime, hipótese negada pela acusação.

Também no depoimento prestado terça-feira, a delegada afirmou ter levado 18 horas para concluir o boletim de ocorrência sobre a morte de Isabella. No momento da conclusão do boletim, segundo ela, não havia mais dúvida de que o caso não se tratava de latrocínio (roubo seguido de morte) como apontava o casal, mas de homicídio. Renata, que era a delegada plantonista do 9º Distrito Policial, no Carandiru, zona norte, quando ocorreu o crime, afirmou ter 100% de certeza da culpa do casal na morte de Isabella.

A delegada lembrou também que outras versões para o crime continuaram a ser investigadas mesmo após a prisão de Alexandre e Anna Carolina. Ela disse ter investigado denúncias anônimas sobre a morte da menina, todas classificadas como trote posteriormente, e afirmou ter percebido que as versões apresentadas pelos acusados não batiam:

A cada dia de investigação, a cada diligência realizada, a cada nova pessoa ouvida, tinha mais embasamento que os réus praticaram o crime.

Em um dos casos, uma pessoa apontada como suspeita do crime chegou a ser interrogada, mas foi excluída como possível responsável pela morte da menina. Uma segunda denúncia anônima relatava a existência de uma pessoa que teria presenciado o crime. A Polícia Civil foi ao local indicado, uma favela na zona norte de São Paulo, mas o número apontado como da residência dessa pessoa não existia.

A terceira denúncia apontava que um morador de um prédio localizado na mesma rua onde Isabella morreu teria visto o assassinato. De acordo com a delegada, policiais estiveram no local e constataram que a pessoa indicada não existia, o que fez com que a ligação passasse a ser considerada trote.

A defesa do casal Nardoni pediu que Renata permaneça à disposição durante o júri. Com isso, ela ficou retida, assim como ocorreu na segunda-feira com a mãe de Isabella. Os advogados do casal afirmam que a delegada pode ser novamente requisitada durante o julgamento.

Médico reafirma que Isabella foi esganada

O médico-legista Paulo Sérgio Tieppo Alves foi a segunda testemunha ouvida terça-feira durante o júri do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, acusados da morte da menina Isabella. Alves, testemunha comum à defesa e à acusação, atestou que a menina Isabella foi agredida na testa, jogada contra o chão do apartamento e arremessada do sexto andar do prédio onde moravam o pai e a madrasta, acusados pelo crime. O médico-legista também detalhou um laudo odontológico que, segundo ele, mostra que a pessoa que provocou esganadura em Isabella também fez pressão para que a menina não gritasse.

Durante o depoimento, a Promotoria pediu para que o médico-legista identificasse fotos anexadas ao processo. As imagens foram mostradas aos jurados.

Depois do médico-legista, foi ouvido o perito Luis Eduardo Dórea, da Bahia, convocado pela Promotoria. Ele vinha sendo listado como uma testemunha surpresa da acusação do casal Nardoni. Ao contrário do que se chegou a dizer, Dórea não é um policial militar que esteve presente no local do crime, em março de 2008. O perito foi consultado pelo Ministério Público, com relação ao laudo feito pela baiana Delma Gama, a pedido da defesa. Ele encontrou, na análise que foi entregue pela perita, trechos escritos por ele em um de seus livros e colocados em contexto diferente. A intenção da acusação era, portanto, desacreditar a análise dos advogados do casal Nardoni.

Sangue

O perito analisou manchas de sangue encontradas na cena do crime, como em lençóis no quarto de onde Isabella foi jogada pela janela.

Segundo ele, existem padrões de mancha que permitem estabelecer a altura da qual ela caiu. De acordo com Dórea, pela análise é possível concluir que as gotas no local do crime caíram de uma altura superior a 1,25m. Com essa análise, ele tentou provar que Isabella estava sangrando no colo de Alexandre.

Dórea já foi diretor geral da Polícia Técnica da Bahia e atualmente trabalha na Secretaria de Segurança Pública do Estado. Perito conceituado, ele tem livros lançados, como Manchas de Sangue como Indício em Local de Crime, e costuma viajar para dar aulas a policiais técnicos de todo o país.

Já o depoimento da perita Rosangela Monteiro, que estava previsto para terça-feira, foi transferido para quarta-feira.

Solidariedade de anônimos e famosos a Ana Carolina

Apesar do caráter técnico-científico que predominou no julgamento terça-feira, não faltou espaço para demonstrações de emoção de familiares. Os depoimentos do dia foram acompanhados pela avó materna da menina Isabella, Rosa Oliveira, que se emocionou quando a delegada afirmou que a menina parecia um anjinho deitado no momento em que foi localizada no gramado do prédio, após cair do sexto andar do edifício London. Rosa, que exibia uma tatuagem feita fez em homenagem à neta, teve que deixar o julgamento por alguns momentos porque estava muito emocionada. Já o casal Nardoni demonstrou tranquilidade durante os depoimentos.

A novelista Glória Perez acompanhou terça-feira os depoimentos:

Vim como uma mãe que passou pelo mesmo sofrimento, para prestar solidariedade.

Segundo ela, o depoimento do médico-legista Paulo Sérgio Tieppo Alves, testemunha comum à acusação e à defesa, foi demolidor . O depoimento durou mais de três horas.

Também senti uma segurança absoluta no depoimento da doutora Renata (delegada Renata Helena Silva Pontes). Todo o carnaval tentando desqualificar o que se fez está caindo por terra afirmou Glória, se referindo ao trabalho da perícia.

Vários grupos estiveram terça-feira em frente ao fórum de Santana para pedir justiça. Algumas pessoas vestiam camisetas com a foto de Isabella e exibem cartazes com dizeres como Para sempre nossas estrelinha , Nós te amamos e Nossa princesinha nº 1 do Brasil .

O advogado Roberto Podval, que defende o casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, afirmou na manhã de terça-feira que não trabalha com a hipótese de os acusados serem culpados pela morte da menina Isabella.

Ao ser questionado sobre seu pedido para que Ana Carolina fique isolada no fórum durante o julgamento, o advogado disse que é triste e desagradável manter Ana Carolina retida e impossibilitada de assistir ao julgamento, mas argumentou que essa era a única alternativa para que a defesa do casal pudesse ouvi-la posteriormente. O advogado, contudo, demonstrou insatisfação com a emoção da mãe de Isabella e o impacto que isso poderia causar na opinião dos jurados.