Foto de corpo marca 2º dia; delegada reafirma culpa de casal

Portal Terra

SÃO PAULO - Com o depoimento de apenas três testemunhas - outras 12 ainda devem ser ouvidas -, o segundo dia do julgamento do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, no Fórum de Santana, na zona norte de São Paulo, foi marcado pelas fotos do corpo de Isabella exibidas aos jurados. Na mais longa e importante oitiva da terça-feira, a delegada Renata Pontes disse estar 100% convicta da culpa do casal na morte da menina.

O segundo dia do júri começou pouco depois das 10h - assim como no primeiro, com atraso superior a uma hora. Testemunha compartilhada entre acusação e defesa, a delegada que assina o relatório das investigações foi a primeira a ser ouvida, em um depoimento com mais de quatro horas. Renata manteve-se fixa às questões técnicas e descartou a presença de uma terceira pessoa na cena do crime.

Com o intuito de desmentir a versão da defesa de que uma terceira pessoa possa ter entrado apartamento, a delegada afirmou que a polícia investigou pelo menos três denúncias anônimas recebidas sobre a hipótese. Todas as apurações, segundo ela, acabaram frustradas.

Segunda testemunha ouvida nesta terça-feira, também convocada pela defesa e pela acusação, o médico-legista Paulo Sergio Tieppo Alves, do Instituto Médico Legal, respondeu às perguntas por três horas e mostrou aos jurados imagens do corpo de Isabella. As fotos, como da bochecha da menina, foram exibidas para demonstrar que a vítima se mordeu ao ser esganada. Incomodada com as imagens, a avó materna da garota, Rosa de Oliveira, deixou a sala do júri.

Alves descartou também que os sinais de asfixia fossem resultado do trabalho de reanimação de Isabella e reafirmou que a morte da menina foi causada por uma soma de fatores que envolvem a esganadura e a queda do sexto andar.

No último depoimento do dia - o da perita Rosangela Monteiro, arrolada por ambas as partes, ficou para a terça-feira por causa da previsão de longa duração -, o perito baiano Luiz Eduardo Carvalho Dórea pouco acrescentou ao andamento do júri. Por cerca de 30 minutos, o autor de um livro sobre polícia técnica contestou um exame de perícia paralelo encomendado pela defesa logo após o crime. Tal material, no entanto, foi "completamente desconsiderado", segundo a equipe de advogados do casal.

Nesta terça-feira, dois momentos do julgamento foram inusitados: quando o promotor Francisco Cembranelli usou uma maquete do apartamento do edifício London, onde estava Isabella na noite do crime; e quando o juiz Maurício Fossen interrompeu a fala do advogado Roberto Podval por ter chamado o réu Alexandre de "vítima". Para o magistrado, a "única vítima estava morta naquele momento".

A tônica da participação da delegada Renata Pontes foi contrariar a tese da defesa de que a investigação da polícia foi direcionada para culpar o casal. Segundo a delegada, ao menos três denúncias anônimas sobre a participação de uma terceira pessoa no apartamento foram investigadas quando o casal Nardoni já estava preso e se revelaram trotes.

"A cada nova diligência, tínhamos mais certeza da participação do casal. Só os denunciei porque tinha 100% de certeza, convicção absoluta da participação dos dois no crime", disse. Neste instante do depoimento, Alexandre Nardoni, que acompanhava o depoimento no plenário ao lado de Anna Carolina Jatobá, abaxou a cabeça.

Ambos os lados "satisfeitos"

Ao final de terça-feira, tanto o Ministério Público como a defesa de Anna Carolina e Alexandre disseram estar satisfeitos com os trabalhos do 2º dia. Na avaliação da equipe de advogados, o depoimento da delegada Renata Pontes foi contraditório e desconexo com os laudos criminais da perícia.

Para o advogado Roberto Podval, a delegada confundiu os jurados em dois pontos: ao dizer que existia sangue de Isabella no local do crime e ao declarar que havia manchas de vômito na camisa de Alexandre. Na interpretação da acusação, nenhum dos laudos comprova as afirmações. Por causa das "contradições", a defesa solicitou que Renata fique à disposição nos próximos dias de julgamento.

Do outro lado, o promotor Francisco Cembranelli disse estar satisfeito com as testemunhas e as elogiou. Segundo o representante do MP, a exposição técnica da acusação estaria deixando o advogado Roberto Podval preocupado. "Isso é apenas um fragmento do que a promotoria ainda vai apresentar e falar durante os debates", afirmou.

Ao deixar o Fórum, o promotor disse acreditar que testemunhas técnicas arroladas pela defesa para os próximos dias não deverão apresentar novidades, mas repetir o material já mostrado. "Eu sairei daqui com um veredicto que espelhe o processo", disse.

Sinais de cansaço

Sentados lado a lado e sem algemas, o casal Alexandre e Anna Carolina permaneceu apático e apresentou uma aparência cansada no segundo dia de julgamento. Os dois deixaram o fórum por volta das 20h10 - mais de 12 horas depois de chegarem ao local -, em carros separados e escoltados por policiais militares.

Apesar de o Tribunal de Justiça ter informado que os lugares onde Ana Carolina e Alexandre dormem podem mudar, acredita-se que eles tenham retornado para as mesmas penitenciárias do dia anterior. Alexandre Nardoni teria sido conduzido ao Centro de Detenção Provisória de Pinheiros, e Jatobá à Penitenciária Feminina da capital.

O caso

O julgamento de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá começou em 22 de março e deve durar cinco dias. O júri popular ouve 16 testemunhas , sendo 11 arroladas pela defesa, três compartilhadas entre advogados do casal e acusação e duas do Ministério Público. Seis foram dispensadas pela defesa ainda no primeiro dia e uma, pela acusação.

Isabella tinha 5 anos quando foi encontrada ferida no jardim do prédio onde moravam o pai e a madrasta, na zona norte de São Paulo, em 29 de março de 2008. Segundo a polícia, ela foi agredida, asfixiada, jogada do sexto andar do edifício e morreu após socorro médico. O pai e a madrasta foram os únicos indiciados, mas sempre negaram as acusações e alegam que o crime foi cometido por uma terceira pessoa que invadiu o apartamento.