Água poluída mata mais que guerras, diz ONU

Jornal do Brasil

BRASÍLIA - O consumo e o uso de água não tratada e poluída matam mais do que todas as formas de violência, inclusive guerras, segundo relatório divulgado segunda-feira, no Dia Mundial da Água, em Nairóbi, no Quênia, na África. O documento intitulado Água Doente foi elaborado pelo Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas. O estudo afirma que pelo menos 1,8 milhão de crianças com menos de 5 anos de idade morrem por ano em decorrência da água doente . Por isso, alerta para a necessidade de adoção de medidas urgentes em quase todo o mundo.

No Brasil, mais de 17 milhões de pessoas não têm acesso à água potável. Apesar do déficit, o principal desafio do país é a qualidade da água oferecida e não a quantidade, avalia o diretor da Agência Nacional de Águas (ANA), Paulo Varella.

A questão da quantidade tem sido mais bem enfrentada. Mesmo no Semiárido, hoje os problemas estão sendo resolvidos, com grandes canais, grandes açudes. No Sul e Sudeste, a questão da qualidade sempre apareceu como o grande problema e no Nordeste começa a preocupar. Os açudes começam a eutrofizar (quando plantas aquáticas crescem excessivamente, comprometendo o uso da água) um pouco mais, começam a ter problemas apontou Varella.

Levantamento da agência realizado em mais de 2 mil pontos de monitoramento em 17 unidades da Federação revelou resultado ótimo em apenas 9% dos pontos. Cerca de 70% têm Índice de Qualidade da Água (IQA) considerado bom; 14%, razoável; 5%, ruim; e 2%, péssimo. O IQA considera níveis de coliformes fecais, temperatura, resíduos e outros aspectos.

Junto das grandes metrópoles, onde há gente demais, mesmo onde tem água, a situação fica complicada. É preciso ter investimentos e uma gestão muito adequada explicou o diretor.

É uma afronta para a humanidade , diz secretário

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, criticou segunda-feira o descaso mundial com as mortes vinculadas ao consumo de água contaminada ou de má qualidade. Segundo estudo do Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas, mais pessoas morrem por causa da falta de acesso à agua limpa do que vítimas de formas de violência como a guerra.

Essas mortes são uma afronta para a Humanidade e minam os esforços de muitos países para atingir seu desenvolvimento potencial disse Ban. Todos os dias despejamos milhões de toneladas de água residual e resíduos industriais e agrícolas nos sistemas de água mundiais.

De acordo com o relatório, as populações urbanas deverão dobrar de tamanho nas próximas quatro décadas. A projeção é que os números subam dos atuais 3,4 bilhões para mais de 6 bilhões de pessoas. Nas grandes cidades já há carência de gestão adequada das águas residuais em decorrência do envelhecimento do sistema, de falhas na infraestrutura ou de esgoto insuficiente.

Isso significa que mais pessoas agora morrem por causa de água contaminada e poluída do que de todas as formas de violência, inclusive guerras , garante o documento, informando ainda que 2 bilhões de toneladas de resíduos são jogadas em águas de todo o mundo por ano. Ban Ki-moon ressaltou, porém, que o mundo já possui conhecimentos científicos suficientes para administrar melhor os recursos naturais.

Desafio

Segundo o documento, certas substâncias poluentes de águas residuais podem ser úteis na produção de fertilizantes para a agricultura, e que 10% da população mundial consomem alimentos cultivados com águas residuais para irrigação e adubação. É um desafio que vai aumentar, pois o mundo sofre rápida urbanização e industrialização, além de crescente demanda por carnes e outros alimentos, a não ser que se tomem medidas decisivas , adverte o estudo.

No Rio, campanha para conscientizar estudantes

A conscientização dos estudantes da rede pública da importância das ações de preservação do planeta é a meta do Programa Cedae de Educação Ambiental nas Escolas. O programa foi lançado segunda-feira na Cinelândia pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Estados do Rio de Janeiro (Cedae) em comemoração ao Dia Mundial da Água.

Refazer os hábitos que levam ao desperdício de água é uma obrigação. Mudar a cultura de recurso infinito é questão de sobrevivência. E, para obtermos sucesso no futuro, é essencial trabalhar o presente com as crianças disse o presidente da empresa, Wagner Victer.

As iniciativas que buscam fazer dos alunos da rede pública do estado agentes multiplicadores de preservação incluem o lançamento, também segunda-feira, do desenho animado Caminho das Águas e da revista em quadrinhos Cuidando do Planeta. Além disso, foi lançado o Ônibus da Cedae que levará estudantes, prioritariamente da rede pública, para visitas guiadas à Estação de Tratamento do Guandu. Segundo o livro de recordes Guiness Book, a estação é a maior do mundo.

Além do meio ambiente, os Jogos Olímpicos de 2016 também ganham com o programa. Um dos compromissos feitos com o Comitê Olímpico Internacional (COI) na candidatura do Rio à sede foi a promoção de projetos educativos com foco no meio ambiente.

Novo método

Segundo o Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Unep), a água poluída mata mais pessoas do que todas as formas de violência. Por isso, a qualidade da água foi o tema escolhido pelo Unep para o dia mundial da água em 2010. No Rio, visando ampliar as formas de análise da qualidade da água para consumo, os pesquisadores da ENSP Antonio Duarte e Valmir Laurentino desenvolveram um trabalho em 5 tribos indígenas Guarani em Angra dos Reis e Paraty.

A análise proposta visa complementar os estudos físico-químicos e microbiológicos, já obrigatórios conforme a Portaria 518 do Ministério da Saúde, com a pesquisa de parasitas na água através dos métodos parasitológico e imunológico. O objetivo dos pesquisadores agora é difundir a metodologia, aplicando-a em outros municípios e com outras populações.

Queremos aumentar a capacidade de avaliação da qualidade da água, através de uma metodologia eficiente e de custo acessível explica Antonio.