Ex-governador do DF, Joaquim Roriz pode ter candidatura atrapalhada

Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Mão invisível por trás da crise que assola a capital da República, o ex-governador Joaquim Roriz não pensa em outra coisa que não seja viabilizar sua candidatura ao governo do Distrito Federal. Mas ele pode sofrer respingos do escândalo que implodiu o governo de seu ex-aliado e hoje principal inimigo político, José Roberto Arruda. Parte dos desvios de dinheiro público que vêm sendo detalhados por Durval Barbosa, o ex-secretário de Relações Institucionais, ocorreu durante o governo Roriz e, numa segunda etapa da Operação Caixa de Pandora, deverá entrar na mira da Procuradoria da República e da Polícia Federal.

Nos bastidores da investigação, a ordem é centrar foco nos desmandos de Arruda, mas sem perder de vista que os desvios são retroativos e, se ainda não provocaram um grande estrago na vida política de Roriz, é porque ele está sem mandato desde que renunciou à vaga de senador, em 2007. O confronto de dados repassados pelo governo distrital ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) mostra que na área em que se originou o mensalão do DEM, a informática, de 2000 a 2006, quando encerrou-se o último governo Roriz, foram gastos R$ 1,9 bilhão. Já no período de Arruda, até o ano passado, foram R$ 490 milhões.

As duas principais testemunhas da Justiça contra Arruda, o ex-secretário Durval Barbosa e o jornalista Edmilson Edson dos Santos, o Edson Sombra, segundo argumenta o governador preso, fizeram a denúncia para abrir caminho a uma candidatura de Roriz. As denúncias podem ter tido motivação política, mas para o STJ o que tem relevância mesmo é que os desvios e a tentativa de suborno são fatos documentados.

Arruda e Roriz começaram a se estranhar já na campanha de 2006, quando o ex-governador deixou vazar um áudio em que acusava o então aliado de corrupto. Mas a relação azedou mesmo em agosto do ano passado, na disputa pelo PMDB do Distrito Federal.

O Arruda puxou o tapete e os ladrilhos que estavam sob os pés de Roriz e entregou o PMDB para o Filipelli ( deputado Tadeu Filipelli) diz o líder do PSC na Câmara, Hugo Leal (RJ), um dos responsáveis pela adesão do ex-governador ao partido.

Os adversários de Roriz acham que não é mera coincidência o fato de, no mês seguinte depois de ter sido espionado por policiais, supostamente a mando de Arruda, Durval Barbosa ter aceito o papel de colaborar da Justiça em troca da redução da pena. O ex-secretário responde a 34 processos na Justiça, todos da época em que atuava no governo Roriz. Mas, segundo a assessoria do ex-governador, Durval assumiu na Justiça a condição de único responsável pelos desvios praticados na gestão anterior, embora as denúncias envolvam os dois governos. Roriz está tão seguro que não será atingido que está em franca campanha.

Não é o que pensam, contudo, os federais e procuradores que investigam o caso. Roriz saiu momentaneamente do foco, mas os fatos que envolvem seu governo estão sendo separados para uma nova fase da Caixa de Pandora. Segundo fontes das duas instituições, o esquema de corrupção operado no governo Arruda é apenas um prolongamento da gestão Roriz.

O elo mais forte entre os dois era justamente Durval Barbosa que, aconselhado por Roriz ou magoado pelas atitudes de Arruda, colocou a faca e o queijo nas mãos de procuradores e delegados federais para que a Justiça golpeasse um dos esquemas mais arrojados de corrupção.

Eles estão brigando. E isso é bom para o inquérito confessa um dos investigadores.

Flagrado em 2007 como beneficiário de uma propina de R$ 2,2 milhões, dados pelo dono da Gol, Nenê Constantino, Roriz renunciou a sete anos de mandato de senador para preservar os direitos políticos, de olho no retorno ao governo do Distrito Federal. Seu obstáculo pode ser o adversário que caiu. Preso, humilhado e sem futuro político, Arruda não tem mais nada a perder. Se quiser, agora é sua vez de dar o troco.