Abismo ainda separa clínicas particulares de centros sociais

Luciana Abade, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Ao contrário da maioria das mazelas brasileiras, a dependência química não escolhe classe social, como enfatizaram os especialistas ouvidos pelo JB. O tratamento da doença, contudo, escancara a latente diferença entre ricos e pobres no Brasil: um mês de tratamento em uma clínica particular de desintoxicação e reabilitação custa de R$ 7 mil a R$ 12 mil. O tratamento é caro porque, além de uma estrutura hoteleira, existe o pagamento de uma equipe de profissionais.

Apesar dos altos preços, aproximadamente 90% dos pacientes das clínicas particulares são internados porque têm planos de saúde privados. O problema é que os planos geralmente cobrem apenas 30 dias de internação por ano.

Segundo o gerente administrativo da Clínica do Renascer localizada em Brasília, Leandro Krissak, os convênios de saúde, principalmente os que atendem pessoas físicas, apresentam resistência para cobrir o tratamento. Logo, é necessário cada vez mais esforço para realizar um tratamento eficiente dentro do prazo em que o paciente está coberto.

Diretora clínica da Renascer, Janete Krissak acrescenta que a maioria dos planos está aberta a uma assistência de crise e se valem da certeza que a desintoxicação é alcançada em menos de um mês. A médica, no entanto, pondera que, apesar de desintoxicados, muitos pacientes precisam ficam por mais tempo internados:

Empatar com a droga já é difícil. Vencê-la é outra história. Muitos pacientes são dependentes há muitos anos e precisam de um tratamento mais prolongado. E há convênios que cobrem apenas cinco dias de internação por ano.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), no entanto, afirma que o atendimento aos transtornos mentais, incluindo aqueles decorrentes do uso de substância psicoativas, é obrigatório em todos os planos regulamentado pela Lei 9.656/98, que prevê internação pelo tempo que for necessário ao tratamento, sendo permitido às seguradoras exigir, no máximo, coparticipação após os 30 primeiros dias de internação.

Do outro lado da pirâmide estão milhares de centros terapêuticos que necessitam de doações para sobreviver. É o caso do Projeto Restaurar, que funciona em Santo Antônio do Descoberto (GO) com capacidade para 14 leitos e apoio da Igreja Shalon Adonai.

Segundo o pastor Sidney de Araújo, os internos costumam ficar, em média, seis meses no projeto, que funciona em uma chácara. Lá, seguem a teoria dos alcoólicos anônimos e dos narcóticos anônimos, ministrada por voluntários. Os internos têm terapia ocupacional e só tomam remédios em caso extremos. Nestes casos, o próprio pastor acompanha o dependente a um hospital da rede pública de saúde.