A confusa extradição do 303 da ditadura uruguaia

Vasconcelo Quadros, JB Online

BRASÍLIA - Terceiro homem na hierarquia do Organismo Coordenador de Operações Antissubversivas (Ocoa) o equivalente ao DOI-CODI brasileiro durante a ditadura militar no Uruguai, o coronel reformado Manuel Cordero Piacentini foi um dos mais importantes integrantes da chamada Operação Condor, como é chamada a articulação dos aparelhos de informação e repressão militares do Cone-Sul. É acusado pelo sequestro e desaparecimento de 11 pessoas, dez delas no Uruguai e uma, Maria Cláudia Irueta Goyena de Gelman, nora do poeta Juan Gelman, na Argentina, para onde deve ser extraditado.

Ele era identificado pelo número 303. Praticou muitos crimes no Uruguai e Argentina semelhantes aos ocorridos aqui pela ditadura. O cumprimento de sua extradição é o reconhecimento de que esses crimes ainda estão em vigência também no Brasil diz o ativista Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul, que ajuda na coleta de provas para punir policiais e militares que, nos anos de chumbo, atuaram na clandestinidade, sequestrando, torturando e executados ativistas de esquerda na década de 70.

Porões

Casada com uma brasileira, pai de uma jovem de 29 anos e há dois anos vivendo em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, Cordero foi um assíduo frequentador de um dos porões da repressão militar argentina, o Automotores Orletti, na periferia de Buenos Aires. Suspeita-se que tenha participado direta ou indiretamente do translado clandestino de 118 ativistas da esquerda uruguaia presos na Argentina e desaparecidos. A extradição concedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e autorizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva se deu em razão do sumiço da ativista Maria Cláudia Gelman, em 1976.

Esperaram apenas ela dar a luz e a mataram lembra Krischke. A criança, uma menina, só foi encontrada e identificada em 2000 pelo avô, o poeta Juan Gelman. Havia sido adotada por um militar argentino e levava o nome de María Macarena, hoje com 32 anos. O mesmo grupo teria matado o filho de Gelman, Marcelo, cujos restos foram encontrados 13 anos depois, dentro de um tanque no canal San Fernando, próximo à casa de detenção ilegal onde o casal foi morto. Krischke diz ter assistido, em Montevidéo, o depoimento de uma ativista que acusa Cordero de tê-la violentado na frente do marido para que este revelasse onde teriam ido parar US$ 12 milhões que a esquerda havia recebido como resgate pelo sequestro de um empresário uruguaio.

Preso terça-feira para cumprimento do mandato de extradição, Cordero passou mal e foi internado no Hospital Municipal de Santana do Livramento. Sob prisão domiciliar por ordem do STF, o militar alegou problemas cardíacos para não ser levado a Uruguiana, a 240 quilômetros, onde há dois dias é aguardado pela Interpol. Assim que receber alta, uma ambulância da Polícia Rodoviária Federal e um médico da Polícia Federal vão acompanhá-lo até o território argentino. No ano passado, para contestar a mesma alegação médica, ativistas entregaram ao MPF um vídeo em que Cordero aparece bebendo num bar, andando e fumando pelas ruas de Santana do Livramento.

Brasil fica de fora de museu chileno sobre ditaduras

A falta de vontade das autoridades brasileiras de levar adiante investigações relacionadas ao período em que o país esteve sob o comando de uma ditadura militar (1964-1985) causou mais um constrangimento internacional. Um museu inaugurado neste mês no Chile com o objetivo de lembrar e homenagear as vítimas de abusos cometidos durante regimes militares em diversos países deixou de fora o Brasil justamente devido ao fato de o país ainda não ter uma Comissão da Verdade como a proposta pelo 3º Programa Nacional de Direitos Humanos.

O Museu da Memória abriu suas portas recentemente em Santiago, capital chilena, e traz em detalhes as histórias e os registros de vítimas da ditadura militar chilena (1973-1990). O arquivo está em exibição num prédio de três andares e contém, segundo organizadores, pelos menos 700 peças de valor histórico, como fotos e documentos, além de filmes e espaços interativos onde os visitantes podem gravar seu depoimento sobre o período.

Em um cartaz, logo na entrada do museu, um alerta lembra que mais de trinta países realizaram Comissões da Verdade para apurar violações dos direitos humanos durante as ditaduras militares. Ao lado do cartaz, placas resumem alguns dos resultados alcançados pelas comissões em vários países, muitos deles da América do Sul. O material, contudo, não cita o Brasil. Só na América do Sul, Chile, Uruguai, Argentina, Peru, Equador, Paraguai e Bolívia já realizaram investigações sobre os abusos por meio destas comissões e mereceram o destaque no museu chileno.

Segundo a diretora do projeto do museu, Marcia Scantlebury, o espaço foi planejado para atender a demanda das organizações de direitos humanos que contavam com material daquela período que já vinha se deteriorando e não tinha onde ser exposto.

A presidente (Michele Bachelet) estava convencida de que era importante guardar este patrimônio. Percorri todo o país conversando com as organizações e reunindo documentos, cartas de amor, objetos dos que sofreram na ditadura relatou a diretora, ela própria uma das muitas ativistas que foram presas durante o regime de Augusto Pinochet no Chile. Não posso dizer o que o Brasil deve fazer. Mas quanto mais Comissões da Verdade, melhor. Sem enfrentar o que vivemos, não podemos garantir que o que ocorreu não se repita.