Líderes em analfabetismo, escolas de Alagoas fecham portas

Odilon Rios, Portal Terra

MACEIÓ - Mais de dez mil professores da rede pública estadual de Alagoas cruzaram os braços, a partir desta segunda-feira, pelos próximos quinze dias, exigindo que o Governo do Estado equipare os salários deles com o piso nacional da Educação, que é de R$ 1.132, para o ensino superior, e R$ 950, a quem tem ensino médio. Um professor, com ensino médio, recebe pouco mais de um salário mínimo (R$ 465); com ensino superior, fica em R$ 1.015.

Com tantos problemas, Alagoas concentra o maior número de pessoas que não sabe ler e nem escrever: a cada quatro habitantes com mais de 15 anos, um nunca foi a escola. Pelos dados da Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios, de 2007, do IBGE, apenas 3,8% dos jovens ou adultos analfabetos freqüentam programas contra analfabetismo. É o pior índice do Brasil. Recorde também em dados como evasão escolar e distorção idade-série.

Nos últimos três anos, esta é a terceira greve dos professores. A primeira, no início do governo Teotonio Vilela Filho (PSDB), em 2006, durou 62 dias. Na década de 90, os professores, com salários atrasados, fecharam escolas em protesto. Estudiosos locais consideram o "período perdido" na educação do Estado.

Pelos cálculos do Governo, 25 mil alunos ficam sem aulas nas mais de 300 escolas espalhadas pelo Estado. "Teremos que adequar os calendários da rede estadual de ensino", disse o coordenador de ensino da Secretaria Estadual de Educação e Esportes, Neilton Nunes.

"Qualquer paralisação é danosa para todos. Mas, certamente, não há momento pior do que este para se cruzar os braços, pois Governo, Sindicato dos Trabalhadores da Educação (Sinteal) e CUT estão em franco diálogo, há uma Mesa Permanente de Responsabilidade Educacional instalada e funcionando; acordamos com a CUT a criação de um comitê que se debruçará detalhadamente sobre os números orçamentários, financeiros e fiscais do Estado como um todo e da Educação, em particular, buscando todas as possibilidades para construir propostas que possam atender aos servidores", disse o governador, em uma carta enviada ao sindicato dos professores.

Com a greve, fecham escolas como o Liceu Alagoano, onde estudou e ensinou o lexicógrafo Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, o homem que deu nome a um dos dicionários mais famosos do Brasil, o "Aurélio", e ainda o poeta Jorge de Lima, conhecido como o "príncipe do poetas" pela geração modernista brasileira; os estudantes da escola Moreira e Silva, onde estudaram três governadores de Alagoas, também não terão aulas.

De acordo com a vice-presidente do Sinteal, Célia Capistrano, o Governo não aceita discutir os nove itens de pauta para o fim da greve. Além do salário, os profissionais do ensino querem melhores condições de trabalho e mais segurança. Cerca de 10% dos professores estão licenciados da função porque desenvolveram doenças ligadas ao trabalho, como síndrome do pânico e depressão.

"É comum um professor dar aula em Alagoas enquanto um marginal, se é que podemos chamar assim, fica na porta da escola limpando o tambor do revólver. Há escolas mais arriscadas para ensinar, como as dos bairros Tabuleiro dos Martins e Dique Estrada, em Maceió", disse Capistrano. Em protesto, os professores fizeram uma passeata pelas ruas da capital alagoana na manhã desta segunda-feira. "Temos casos de professores que são ameaçados de morte e ainda aqueles que não querem mais ensinar na escola e pedem transferência. Tem professor que não pode dar nota baixa a aluno porque tem medo de morrer", descreveu a dirigente do sindicato.

"Tem que se investir em educação. Não há professores na rede pública e falta planejamento e valorização profissional. Os professores não têm cursos de formação há muito tempo", contou a vice-presidente do sindicato dos professores.