Oposição apresentará nova denúncia contra Sarney

Jornal do Brasil

BRASÍLIA - O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM) vai apresentar uma nova denúncia, a quarta, contra o presidente da casa, José Sarney (PMDB-AP). Virgílio pedirá a cassação do mandato por quebra de decoro parlamentar em função das revelações em torno da Operação Boi Barrica, realizada pela Polícia Federal no Maranhão a qual resultou no indiciamento do filho do ex-presidente da República, Fernando Sarney. Nas investigações, de acordo com reportagem do jornal O Estado de São Paulo, gravações autorizadas pela Justiça teriam flagrado José Sarney negociando a contratação secreta para o Senado do namorado da neta, Maria Beatriz Brandão Cavalcanti Sarney. Henrique Dias Bernardes foi nomeado para Diretoria Geral e recebeu por cinco anos R$ 2.700.

A situação dele fica cada vez pior, mais ilegítima. Os fatos são estarrecedores, comprometedores não só dele e do seu mandato, mas sobretudo da saúde moral da instituição que ele ainda preside disse, enfatizando que só a renúncia é capaz de abafar a crise. A presença do presidente Sarney simboliza esse passado de irregularidade que nós temos que virar a página afirmou.

Para Sarney, no entanto, o dia não foi de pressão contínua. Segundo o diretor-geral adjunto do Senado, Luciano de Souza Gomes, dos 663 atos mantidos secretos pela diretoria afastada, o atual presidente assinou dois deles depois de empossado no cargo e sete como parte da Mesa Diretora da Casa. Na nota divulgada à imprensa, Luciano de Souza Gomes esclarece ainda que esses atos não tratavam de nomeação ou exoneração de qualquer pessoa e que os outros nos quais atua como integrante da mesa mereceram aprovação pelo plenário.

Sarney nesta quinta-feira no Senado

A nota é uma resposta à reportagem publicada nesta quinta-feira pelo jornal O Estado de S.Paulo , que revela que, dos 663 atos secretos anulados, pelo menos 10% favoreceram familiares e aliados políticos de José Sarney. A matéria lista os servidores ligados ao presidente José Sarney que foram nomeados por atos secretos, mas, em momento algum, diz que os atos foram assinados pelo mesmo.

Recesso

José Sarney não escondeu o alívio nesta quinta-feira ao deixar a Casa no final do expediente. Questionado se ele estava contente com a conclusão da votação dos projetos previstos para o primeiro semestre do ano, Sarney assentiu com a cabeça e disse: Graças a Deus .

Nesta quarta-feira o plenário do Senado aprovou 37 propostas, entre elas uma nova Lei Nacional de Adoção, que possibilita a adoção por pessoas maiores de 18 anos, independente do estado civil. Os senadores aprovaram ainda mudanças no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser alvo de um voto de censura do Senado. O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) apresentou nesta quinta-feira um requerimento pedindo que o Senado aprove um ato de censura à declaração do presidente chamando os senadores da oposição de "pizzaiolos". O documento é assinado por outros 11 parlamentares de governo e oposição.

Para a censura ser confirmada, é preciso que a proposta seja aprovada pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e depois pelo plenário. Segundo Buarque, o presidente Lula fere a Constituição ao desrespeitar a independência dos Poderes. "O presidente não tem o direito de fazer isso. O Legislativo é um poder equivalente ao Executivo e merece respeito. Não podemos aceitar essa maneira desrespeitosa que o presidente Lula trata o Senado", disse.

Apesar de repreender a postura do presidente, o pedetista acusou o presidente e seus aliados de serem "pizzaiolos". "Não vou dizer quem são, mas são aliados do presidente. Tem alguns sim, mas a Casa não. Os outros até podem dizer isso, mas o presidente Lula não. A imprensa tem direito, mas o presidente não porque ofende outro Poder. O presidente precisa ter noção de que deseduca o país com atitudes como essa", disse.

Buarque disse ainda que o presidente não pode falar de pizzaiolos, porque pretende fazer uma grande pizza com a CPI da Petrobras. "Agora, como ele pode dizer isso se os pizzaiolos são os aliados dele que não querem deixar a gente apurar as irregularidades aqui e fazer uma grande pizza da CPI da Petrobras. Há intenção de o governo usar a força para não deixar investigar as denúncias", afirmou.

Os senadores Jefferson Praia (PDT-AM), Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) e Mão Santa (PMDB-PI), que estavam no plenário, também condenaram as declarações do presidente. "Estamos querendo oficializar a nossa indignação a declaração do presidente que ofendeu ao Parlamento brasileiro", disse Mozarildo.

O vice-líder do governo, Gim Argello (PTB-DF), tentou minimizar a declaração e pediu desculpas em nome do presidente Lula. "É um exagero esse pedido de censura. O presidente Lula fala com o linguajar popular e não quis ofender ninguém", disse.

Ontem, questionado se a CPI da Petrobras acabaria "em pizza", o presidente Lula acusou a oposição de "gritar" enquanto ele trabalha e chamou os senadores de "bons pizzaiolos".

Em resposta, o Senado rejeitou a recondução do diretor da ANA (Agência Nacional de Águas), Bruno Pagnoccheschi. Para contornar a situação, governistas adiaram para agosto a apreciação de outras indicações. Vários parlamentares da oposição usaram a tribuna para afirmar que a grande pizzaria do país é Planalto.