Eletronuclear: não houve demora na comunicação do vazamento em Angra 2

Thais Leitão, Agência Brasil

RIO DE JANEIRO - O coordenador da Área de Segurança da Eletronuclear, José Manuel Diaz, negou nesta quarta-feira, em entrevista à Agência Brasil, que a empresa tenha demorado a comunicar o vazamento de material radioativo na Usina Nuclear Angra 2. Segundo Diaz, todos os procedimentos de informação requeridos nesse tipo de evento foram realizados, como a comunicação imediata à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), órgão que regula a atividade no país, e à prefeitura de Angra dos Reis, município onde está localizada a usina.

As duas entidades confirmaram, por meio de nota, que foram avisadas sobre a situação no dia do acidente.O vazamento foi no dia 15 de maio, mas apenas nessa terça, 11 dias depois, a Eletronuclear emitiu nota oficial com informações sobre a situação.

- Não era necessária uma divulgação ampla para a sociedade, mas, como somos uma estatal, as informações estão totalmente abertas. Não houve restrição ou ocultamento das informações. O que não fizemos foi chamar os jornais para avisar afinal, o evento foi considerado insignificante em termos de impactos, já que não afetou a comunidade, o ambiente, nem, de maneira grave, os trabalhadores - explicou Diaz.

De acordo com Diaz, o vazamento ocorreu porque o funcionário que fazia a limpeza de um equipamento em uma sala de descontaminação deixou uma porta aberta. Com isso, houve circulação de material radioativo. Nota divulgada pela Cnen informou que quatro pessoas que estavam em ambientes próximos foram contaminadas em níveis abaixo de 0,1% dos limites estabelecidos em norma para os trabalhadores. Eles passaram imediatamente por um processo de descontaminação.

Apesar do acidente ter sido motivado por falha humana, Diaz afirmou que o treinamento ao qual os funcionários são submetidos é considerado eficiente e de alto nível , não apenas por instituições brasileiras, mas também por entidades internacionais, como a Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à Organização das Nações Unidas (ONU). O coordenador de Segurança disse que, além de informações sobre aspectos técnicos, os funcionários recebem sistematicamente capacitação psicológica.

Para o professor Aquilino Senra, do Programa de Energia Nuclear do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o procedimento adotado pela empresa foi correto, com a comunicação do fato à Cnen e à prefeitura de Angra. Segundo ele, tendo em vista as informações divulgadas por meio da nota oficial emitida ontem (26) pela Eletronuclear, trata-se de um Evento Não Usual de grau 1, conforme a Escala Internacional de Eventos Nucleares (Ines), que vai de 0 a 7.

- É um grau considerado baixo. Eventos como o que ocorreu em Angra 2 acontecem com frequência em diversos locais no mundo. No ano passado, por exemplo, foram verificados, somente na França, mais de 100 casos no mesmo grau - afirmou.

Senra ressaltou, no entanto, que o órgão regulador deve ficar atento se, em uma mesma usina, esses eventos de baixa repercussão começarem a se tornar usuais.

- Isso pode indicar que um evento mais grave pode vir a ocorrer.

Já o coordenador da Campanha de Energias Renováveis da organização não governamental Greenpeace, Ricardo Baitolo, defende transparência mesmo em casos de pequeno impacto.

- O vazamento foi pequeno e não teve grandes impactos, mas, diante de todos os acidentes ligados ao setor que já ocorreram no mundo, a falta de informação só contribuiu para aumentar a insegurança e o clima de desconfiança da população, especialmente de quem vive em torno das usinas - destacou.