Uma nova Raposa prestes a explodir

Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Novo caldeirão no processo de demarcação de terras indígenas aberto pelo governo do presidente Lula, o confronto entre produtores rurais e a etnia guarani kaiowá numa faixa de 700 quilômetros de fronteira seca, em Mato Grosso do Sul traz um fato novo na crônica dos conflitos: a presença de índios que moram no Paraguai nas comunidades e em acampamentos de lona que vem sendo montados, desde o ano passado, à margem de estradas nos municípios de Antônio João, Aral Moreira e Iguatemi, no extremo Sul do Estado. Os parentes como são chamados pelos conterrâneos do lado brasileiro, se transformaram numa polêmica fonte de discórdia entre os atores envolvidos no conflito.

Antropólogos que trabalham com a questão indígena e representantes do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), ONG ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), avaliam que os guarani kaiowá são habitantes históricos de um território em comum que abrange Brasil, Paraguai e Argentina e que, portanto, não reconhecem os limites de fronteira impostos pelo branco. Produtores rurais e os representantes da bancada parlamentar de Mato Grosso do Sul, defensora do agronegócio, acham que a importação de índios paraguaios tem a finalidade de inflar acampamentos para aumentar a pressão sobre o governo federal.

O fluxo dos índios que moram no Paraguai é estimulado pela Funai (Fundação Nacional do Índio) e pelo Cimi, que precisam de contingente para aumentar a pressão denuncia o presidente da Federação da Agricultura do Mato Grosso do Sul (Famasul), Ademar da Silva Júnior. O deputado Dagoberto Nogueira (PDT-MS), acha que há nos acampamentos perto de dois mil índios que vivem no Paraguai e que esse movimento vai aumentar os riscos de enfrentamento entre produtores e índios.

O novo foco de conflito se instalou numa região que representa dois terços do território de Mato Grosso do Sul e onde se encontram as terras mais férteis do estado. As propriedades são tituladas afirma o deputado Dagoberto Nogueira, ao se referir aos riscos de um conflito diante do aumento da pressão indigenista. Funai e Cimi acham que o argumento é falso e faz parte da pressão de políticos e produtores para evitar a identificação de áreas passíveis de demarcação.

Os índios transitam por uma área de ocupação histórica. São parentes que se visitam entre uma e outra aldeia no Brasil e no Paraguai diz o coordenador do Cimi na região, Egon Heck. Ele garante que os acampamentos não estão sendo inflados e que a suposta denúncia não tem procedência. São calúnias e difamações sem fundamento. Os índios têm direitos e garantias. Quem está contra é que comete crime contra a Constituição diz o representante do Cimi. Segundo ele, cerca de 100 mil guarani kaiowá vivem ao longo de uma faixa de ocupação que vai da bacia do Rio Paraná, no Brasil, a província de Missiones, na Argentina, ao Sul do Paraguai. O Ministério Público Federal, por exemplo, já está articulando uma política única de tratamento da etnia nos três países, desconsiderando limites territoriais.